O país que queremos ser daqui a vinte anos
Há uns tempos, em conversa com um amigo que tem uma ligação próxima ao Rei de Marrocos, confidenciava-me a sua surpresa pelas políticas em Portugal serem quase todas para resolver os problemas do curto prazo e muito poucas pensadas para o futuro. Dizia-me ele que em Marrocos já se pensa no mínimo a vinte anos. Olhando sempre uma geração à frente. A uma certa altura, perguntou-me que país queríamos nós (portugueses) daqui a vinte anos. Refletindo um pouco sobre o assunto chego à conclusão que há perguntas que fazemos todos os dias e outras que evitamos fazer. Perguntamos quanto custa a gasolina, quando baixam os juros, quem vai ganhar as próximas eleições ou qual será a nova polémica política da semana. Mas há uma pergunta, talvez muito mais importante, que raramente fazemos, que país queremos ser daqui a vinte anos?
É estranho. Vivemos sempre com pressa, mas quase nunca pensamos verdadeiramente no futuro. Portugal parece ter-se habituado a viver ao dia. A resolver o problema que apareceu hoje, a remendar a urgência que ficou ontem por resolver e a esperar que amanhã seja suficientemente simpático para não nos trazer mais problemas. Só que os países não se constroem assim. Um país constrói-se com tempo. Com estratégia. Com decisões que, muitas vezes, não dão votos, não aparecem nas televisões e não produzem resultados imediatos. Veja-se o tema da reforma na Educação. Uma escola que hoje se melhora pode mudar a vida de uma criança daqui a quinze anos. Uma linha ferroviária que hoje se constrói pode transformar uma região durante décadas. Uma reforma da saúde pode demorar anos até produzir resultados. E uma floresta que hoje se protege pode evitar a tragédia de amanhã.
O problema é que a política gosta demasiado do presente. Cada quatro anos, parece que Portugal começa de novo. Mudam os governos, mudam as prioridades, mudam os discursos e, por vezes, até mudam os nomes das mesmas promessas. Entretanto, há problemas que envelhecem connosco. A habitação é um deles. Não podemos querer que os jovens fiquem em Portugal se não lhes damos condições para construir uma vida. Não basta dizer que temos talento. É preciso criar condições para que esse talento não tenha de partir. Depois há a saúde, a educação (de que falei a semana passada). A justiça. A demografia. A água. A energia. A mobilidade. A floresta. O território. Tudo problemas conhecidos. Quase nenhum verdadeiramente novo. Portugal tem hoje condições que há algumas décadas seriam difíceis de imaginar. É um país seguro, com uma localização extraordinária, com capacidade para atrair investimento, turismo e talento. Temos universidades, empresas inovadoras, uma nova geração com vontade de fazer diferente. Temos mar, sol, natureza e uma qualidade de vida que muitos países invejam. Mas não podemos continuar a viver apenas das vantagens que recebemos.
É preciso construir as que queremos deixar. Precisamos de uma estratégia nacional que sobreviva aos governos. Um compromisso sério com a educação, com a saúde, com a habitação, com a inovação e com a sustentabilidade. Precisamos de discutir o país que queremos deixar, e não apenas o país que queremos governar. Porque daqui a vinte anos ninguém se lembrará de muitas das discussões que hoje nos parecem fundamentais.
Ninguém saberá quem ganhou a batalha política de uma terça-feira qualquer. Ninguém guardará memória da polémica que dominou as redes sociais durante três dias. Mas os nossos filhos lembrar-se-ão da casa onde conseguiram ou não conseguiram viver. Da escola onde estudaram. Do hospital onde foram tratados. Do emprego que encontraram. Da cidade onde escolheram ficar ou da razão que os obrigou a partir.
É por isso que esta não é uma pergunta para os políticos. É uma pergunta para todos nós. Que país queremos ser daqui a vinte anos? Um país mais rico, mas onde poucos conseguem viver? Um país moderno, mas onde os jovens continuam a partir? Um país cheio de turistas, mas sem casas para quem cá trabalha? Um país digital, mas incapaz de garantir uma consulta médica em tempo útil? Ou queremos ser um país que cresceu sem perder a alma e a essência? Um país onde o progresso não seja apenas medido pelo PIB, mas também pela capacidade de proporcionar uma vida digna. Onde a tecnologia sirva as pessoas e não as substitua sem critério. Onde envelhecer não seja uma condenação à solidão. Onde nascer numa determinada região não determine as oportunidades que teremos.
O futuro não é uma coisa que acontece. É uma coisa que se prepara. E cada decisão que tomamos hoje é, de alguma forma, uma carta que estamos a escrever para alguém que ainda não conhecemos. Para o país da próxima geração.