O Custo de Não Deixar Crescer
A Madeira tem hoje uma oportunidade rara: afirmar-se como um polo europeu relevante na produção de conhecimento e informação digital do oceano. Num contexto em que a União Europeia aposta fortemente em infraestruturas como o Digital Twin of the Ocean, o EMODnet ou os serviços Copernicus, regiões com capacidade científica instalada e posicionamento estratégico, como a nossa, podem — e devem — assumir um papel central.
Mas entre o potencial e a concretização persiste um obstáculo: a dificuldade em criar um ambiente institucional verdadeiramente favorável ao crescimento.
Organizações como a ARDITI demonstram que a Região tem competências, redes internacionais e capacidade de execução. Produzem ciência, captam financiamento competitivo e contribuem para agendas europeias críticas, nomeadamente na disponibilização de informação fiável para apoiar a decisão política, a gestão ambiental e o desenvolvimento da economia azul.
Apesar disso, este percurso é frequentemente travado por dinâmicas internas que nada têm de estratégico. Processos administrativos morosos, interpretações restritivas e resistências institucionais acabam por limitar aquilo que deveria ser incentivado. Em particular, a dificuldade em concretizar vínculos laborais e oferecer condições competitivas a profissionais altamente qualificados revela uma disfunção governativa preocupante.
Num mercado global de talento, pagar melhor não é um problema — é uma necessidade. O risco não está nas diferenças salariais dentro da administração, mas na incapacidade de atrair e reter quem garante qualidade, inovação e relevância internacional. Quando o desconforto com essas diferenças se transforma em bloqueio, deixa de ser uma questão de equidade e passa a ser um entrave ao desenvolvimento — o que muitos, na linguagem corrente, chamam de inveja.
Este tipo de atitude tem um custo real: projetos que não avançam, financiamento que se perde, parcerias que não se concretizam e talento que parte. Mais grave ainda, compromete a credibilidade da Região junto de redes europeias que exigem fiabilidade, agilidade e visão estratégica.
Uma governação alinhada com estes desafios exige mais do que declarações de apoio à ciência. Exige ação: simplificação de processos, confiança nas instituições, autonomia operacional e reconhecimento de que a competitividade internacional implica padrões exigentes. Exige também uma mudança cultural na administração pública, onde o sucesso de uma entidade seja visto como um ativo coletivo.
Quem trava a Madeira, trava o futuro — e o futuro não se adia, perde-se.