Sonho de criança resultou num dicionário de língua gestual e numa empresa para surdos

03 Fev 2019 / 09:40 H.

Ana Bela Baltazar em criança gostava de aprender línguas e de turismo e 40 anos depois foi precursora na Língua Gestual Portuguesa (LGP), criou uma empresa única na Europa para surdos e colabora regularmente com a justiça.

A caixinha no canto inferior direito do ecrã de televisão mostra diariamente, à hora de almoço, no Jornal da Tarde da RTP, uma intérprete de LGP que traduz para os surdos as notícias do dia. Ela é Ana Bela Baltazar, cuja paixão pela tradução faz com que hoje “nunca saiba o que vai fazer no dia seguinte” de tal forma é solicitada na “missão” de auxiliar pessoas com deficiência auditiva.

Em entrevista à Lusa, confessou que a LGP “foi paixão à primeira vista”, assim que começou a colaborar na Associação de Surdos do Porto (ASP), investindo depois na formação, tornando-se intérprete para rapidamente começar a colaborar com a Justiça nesse ramo.

E se na juventude, em Moçambique, desejou seguir línguas e gostava do turismo, Ana Bela Baltazar seguiu o ser percurso quase à velocidade com que se apercebia das lacunas para com os surdos, investindo “mais tarde no mestrado em psicologia clínica para os ajudar.

“Normalmente, eles não só não recorrem a psicólogos, mas também têm até uma certa aversão, pois não se fazem entender”, relatou a especialista.

No início da década de 1990 começou a colaboração com a Justiça, acompanhada, durante alguns anos pelo ensino, como intérprete em sala de aula, antes de ingressar na RTP Porto.

Questionada sobre o que lhe dá mais gozo fazer, elegeu a televisão e a justiça, ainda que por razões diferentes, embora em ambas o altruísmo esteja bem vincado.

“Na televisão são os diretos. É para mim um desafio acompanhar o ritmo da apresentação das notícias e estar a par delas. Por outro lado, isso obriga-me, em termos de LGP a não estagnar, pois tenho de estar em evolução contínua para acompanhar os novos termos. É um crescimento diário”, descreveu.

Quanto à justiça, os desafios são diferentes, pois obriga-a a ter de deslocar-se “para qualquer parte do país, ilhas inclusive, sem nunca saber quem vai encontrar”, se pessoas que “dominam a LGP ou que nada sabem dela”, disse.

“Quando assim é, tenho de recorrer à comunicação total, arranjando recursos para passar a minha mensagem e para ser interpretada”, disse, falando ainda num esforço que nem sempre é bem-sucedido, mas que a experiência a faz recorrer a novas ferramentas, como seja “deslocarem-se ao local do crime, fazer a reconstituição e, dessa forma, obter a perspetiva do surdo”.

Considerando-o um trabalho “gratificante, apesar das dificuldades”, salientou a intérprete que “mais do que numa escola”, consegue-se nesta colaboração “mudar a vida das pessoas, dando-lhe voz e permitindo-lhes testemunhar um crime que alguém pudesse pensar ficar encoberto pelo silêncio destes”.

O julgamento do ‘Gangue do Multibanco’, em 2012, foi a colaboração mais demorada com a justiça que teve, por um dos arguidos ser surdo, tendo estado três meses seguidos a colaborar nas audiências com o Tribunal de Oliveira de Azeméis.

Autora, em 2018, do primeiro dicionário online de LGP, diz que o fez “para acompanhar o primeiro documento nascido em 2010”, em que também interveio, explicando que a segunda versão “resultou da observação da dificuldade que os surdos têm em interpretar frases simples”, fazendo acompanhar a “palavra escrita com o gesto em LGP, alargando-lhes, assim o conhecimento lexical”.

Em 2016 consumou o segundo desejo de criança, criando a primeira empresa de Europa de turismo para surdos, a ‘Handstodiscover’ (mãos para descobrir), uma forma de contornar um “turismo inclusivo que menciona sempre as barreiras físicas, mas se esquece das outras”, criticou.

Tendo como base a ‘international signs’ (gestos internacionais) “com que os surdos de diversos países comunicam entre si quando de nacionalidades diferentes”, a empresa já “cresceu para Lisboa” e tem como “aposta atrair os mercados dos Estados Unidos e do Canadá”, concluiu.

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