A doença mais temida por doentes graves em Santa Maria

Lisboa /
10 Abr 2020 / 02:14 H.

Ansiedade e pânico são os sentimentos expressos pela maioria dos doentes com covid-19 que chegam às enfermarias do Hospital Santa Maria, um medo partilhado por pacientes com doenças como o cancro, que confessam aos médicos temer morrer desta infeção.

“Os doentes estão muito assustados”, já tinham com que se preocupar e agora têm mais este receio, disse à agência Lusa o diretor do Serviço de Oncologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN), Luís Costa.

O oncologista contou que a última doente que tinha observado “começou a chorar porque estava com medo da covid-19”.

“A senhora tem uma doença grave em estado avançado, que precisa de apoio, precisa de ajuda, e acho que tem muito mais probabilidades de vir a morrer de cancro do que morrer por covid”, lamentou Luís Costa.

Este medo também é transmitido pelos doentes infetados pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2) quando são internados no Santa Maria, que além de ter um atendimento específico para estes casos, mantêm as outras atividades assistenciais, mas reduzidas aos doentes oncológicos, às urgências e às cirurgias inadiáveis.

“A maioria dos doentes que recebemos vêm em pânico, com níveis de ansiedade elevadíssimos, porque só o próprio nome covid-19 os deixa completamento em pânico porque associam logo a infeção grave, a morte”, disse à agência Lusa Ana Filipa, enfermeira do Serviço de Medicina II.

Quando são internados, os doentes expressam “ansiedade e medo”, uma preocupação que aumenta quando lhes são explicadas as normas a que vão estar sujeitos, como “estarem confinados a um quarto” e não poderem nem ir à casa de banho, contou.

Para aliviar a carga emocional dos doentes, o centro hospitalar conseguiu angariar ‘tablets’ para fazer videochamadas com a família, o que os põe em contacto com o mundo exterior e faz com que não se sintam tão isolados.

Esta preocupação é extensível aos familiares que todos os dias ligam para o hospital porque que não podem ver o doente durante todo o internamento e receiam não se poder despedir caso este não sobreviva, “o que é muito difícil também para o luto”, contou a enfermeira Ana Filipa.

Mas esta carga emocional também é vivida por quem lida diariamente com estes doentes, como contou a assistente operacional Paula Silva, que teve de mudar todas as rotinas no hospital desde a pandemia, começando pelo fardamento e equipamento que tem de mudar sempre que entra nos quartos e passa “a linha vermelha” traçada no chão que divide o espaço do serviço.

Esse processo exige tal disciplina que em cada parede do serviço está pendurada uma folha A4 com os 10 procedimentos que têm de ser seguido para a “remoção do ‘kit’ de cuidados básicos”.

“O desafio é ter de estar constantemente a mudar de roupa” e permanecer no quarto enquanto o doente toma o pequeno-almoço e faz a sua higiene”, contou Paula Silva.

A agravar esta situação está a saudade que os profissionais sentem da família. “Tenho duas filhas e como o meu marido também está a trabalhar tenho de as manter em casa dos avós, porque embora tenhamos todos os cuidados, temos receio, porque não sabemos se podemos ser portadores de alguma coisa”, lamentou.

“Eu temo por mim, mas também pelos meus pais”, disse, por seu turno, Ana Filipa, acrecentando que, apesar de cumprir todas as indicações em termos de controlo de infeção, “é um descanso não estar na mesma casa que eles, que são um grupo de risco”.

Esta situação é também complicada de gerir para a médica internista Marisa Teixeira da Silva: “Passamos neste momento mais tempo no hospital do que em casa e a maior parte está separada ou isolada dos familiares de maior risco e alguns dos filhos”.

“É muito complicado gerir isso tudo, eles estão com receio por nós e nós também vamos sempre um bocadinho angustiados por pensar que é mais um, dois, três ou quatro dias que vamos ficar sem os ver e sem os poder abraçar, principalmente os filhos (...) alguns ainda muito pequeninos que não compreendem porque é que não os abraçamos”, lamentou a médica.

Para Marisa Teixeira da Silva, os portugueses “têm de ajudar” nesta missão, ficando em casa, para que “ela termine e corra tudo bem para todos”.

“Estas medidas são essenciais ou não conseguimos controlar [a doença] como temos estado a fazer até agora”, dando uma resposta adequada a todos os casos.

Este apelo também é feito pelo oncologista Luís Costa: “As pessoas têm que ser responsáveis, tem que ficar em casa e evitar contagiar outras pessoas” para que se possa “resolver isto de uma vez por todas”.

Em Portugal, segundo o balanço de quarta-feira da Direção-Geral da Saúde, registaram-se 380 mortes, mais 35 do que na véspera (+10,1%), e 13.141 casos de infeções confirmadas, o que representa um aumento de 699 em relação a terça-feira (+5,6%).

O país, onde os primeiros casos confirmados foram registados no dia 02 de março, encontra-se em estado de emergência desde as 00:00 de 19 de março e até ao final do dia 17 de abril, depois do prolongamento aprovado na quinta-feira na Assembleia da República.