Esses, os da memória curta

Felizmente que ainda há por aí muito boa gente que adora dar. Dão e pronto. Que gostam tanto de ajudar que fazem disso vida. Que não esperam e muito menos desesperam por algo em troca

13 Jun 2019 / 02:00 H.

É apanágio do comum dos mortais ter muito mais disponibilidade para receber do que para dar. O simbolismo das atitudes que têm para connosco é regra geral mais marcante principalmente quando é alguma coisa de que gostamos ou um simples gesto que nos faz feliz. Quando recebemos isso normalmente significa que somos queridos por alguém, que reconhecem o nosso trabalho mas acima de tudo que se lembram de nós. Não somos esquecidos. A importância que atribuímos a algo que nos dão é normalmente também sinónimo de ego mais cheio mesmo que nos estejam só a tentar impressionar, que seja pouco sincero ou só porque sim.

Dar é sempre mais complicado. Do domínio do altruísmo, das nossas acções voluntárias muito mais representativo da nossa personalidade, da nossa identidade. Significa partilhar, ter apreço por alguém, reconhecer gestos ou méritos, retribuir ou pura e simplesmente apoiar, ajudar e querer dar força a alguém que precise ou tão só que merece o nosso carinho, atenção ou respeito. Ganha maior relevo quando é feito sem esperar nada em troca, sabendo de antemão que do outro lado não existe sequer possibilidade de retribuição. Até mesmo risco de não sabermos se a pessoa do outro lado saberá dar o devido valor, se terá essa mesma vontade de receber e a disponibilidade mental para perceber o significado. É isso que o torna tão mágico que mesmo não recebendo de volta faz de quem dá genuinamente pessoas mais cheias e diversas vezes mais recompensadas só pelo próprio gesto em si.

A vida é feita de uns e de outros e das boas sensações que daí advêm. Mas custa-me ver gente que está sempre de mão estendida preparada para “venha a nós” mas quando é para libertar alguma coisa “alto e pára o baile”. As pequenas sanguessugas da nossa sociedade, alguns parasitas e muitos egoístas que não se conseguem desfazer muitas vezes nem daquilo que não precisam e que pode ser tão importante para outros. Infelizmente temos muitos desses por aí, dos que só se sabem encostar, que vivem às custas sem precisarem, só por simples preguiça ou mau fundo. Que se aproveitam da bondade dos que os rodeiam ou que apenas não têm a noção do que os rodeia, do seu papel no Mundo ou do que custa a Vida.

É mais normal do que seria desejável ver pessoas que quando estão na mó de cima terem um rol de gente à sua volta sempre prontas a receber, a aproveitar as oportunidades que lhes são concedidas a beber do sucesso alheio e a crescer com os outros mas que quando o ciclo se inverte se esquecem da Lei do Retorno, deixam de ser simpáticos, “amigos” por vezes até submissos para passarem a ser agressivos, intolerantes e intransigentes. Esses, os da memória curta, que se esquecem permanentemente que a vida dá muitas voltas e que lhes falta o carácter para perceber o que foi feito por eles, que só reconhecem o presente e que não têm um pingo de vergonha, que se fazem de desentendidos.

Felizmente que ainda há por aí muito boa gente que adora dar. Dão e pronto. Que gostam tanto de ajudar que fazem disso vida. Que não esperam e muito menos desesperam por algo em troca. Que lhes basta um sorriso do outro lado para ganhar o dia e que movem montanhas por vezes em prejuízo da sua vida pessoal para fazer algo por alguém. Para dar o que às vezes nem têm. Mas também aqueles que se lembram que um dia receberam, são compreensivos e tolerantes e estão lá para o que der e vier para apoiar quem os apoiou e para dar de quem receberam. Importa perceber o mais profundo dos significados do dar e receber e nunca nos esquecermos que ali, ao fundo da esquina, não tão distante assim, podemos ser nós um dia. Que vale a pena valorizar ambos os gestos e fazê-los da forma mais pura que possa existir. Recebendo. Dando. Retribuindo. Sorrindo.

José Paulo do Carmo
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