Castanhas, quentes e boas

O professor podia perguntar-me tudo sobre castanheiros, sobre os ouriços caídos no chão com as castanhas dentro.

11 Nov 2018 / 02:00 H.

Aquilo era certo e garantido. Todos os anos, assim em Novembro, o professor Baltasar dava-lhe para nos mandar escrever redacções sobre o Outono e também era certo e garantido que aqueles textos escritos a custo no caderno de linhas versavam quase todos sobre as primeiras chuvas, as folhas a cair das árvores, o vento e o frio que chegavam. E claro vinham sempre à história as castanhas, as tais que eram quente e boas. Como eu sofria e transpirava das mãos para escrever redacções sem borrões e sem apagar até fazer um buraco no caderno socorria-me dos tons vermelhos e castanhos na latada da vinha e falava das castanhas, dos vendedores de castanhas, embora nunca tivesse visto um.

O professor podia perguntar-me tudo sobre castanheiros, sobre os ouriços caídos no chão com as castanhas dentro. Disso eu sabia, havia um castanheiro grande na casa do meu bisavô, mesmo junto ao portão. E, quando se vendeu o terreno e a casa a um rapaz do Curral emigrado em França, íamos apanhar ouriços à fazenda da Maria Rosa para juntar às laranjas e aos pêros pequeninos da lapinha. Lembro-me de ver as castanhas ao sol, lembro-me de as comer cruas, de ser difícil tirar aquela pele, de às vezes comer mesmo assim. Quando a minha mãe tinha paciência, cozia, mas a minha mãe tinha a cabeça cheia de assuntos importantes e não gostava de cozinhar. De modo que ou era assim mesmo ou não era.

Mais tarde, muito depois do tempo em que fazia buracos no caderno de linhas com a borracha de apagar esferográfica, lembro-me de passar pelos vendedores de castanhas à entrada do cais e de alguém dizer que aquele fumo e aquele calor não combinavam com os dias quentes, húmidos e abafados do Outono madeirense. Bom era em Lisboa, com aquele vento frio a dar na cara, mas eu nunca tinha ido a Lisboa, nem a outro lugar qualquer a não ser a viagem ao Porto Santo no Pirata Azul. O que não devia contar como viagem. A malta que se juntava no pátio do liceu nos intervalos das aulas percebia do assunto, percebia mais de todos os assuntos. De vendedores de castanhas, de viagens, de namoros, eu podia falar de castanheiros, só que o tema não era de grande interesse.

Os intervalos das aulas, ali no pátio do liceu e no muro que dava para o campo de futebol dos Ilhéus, ensinaram-me a ouvir e a calar, a ter a noção de que o mundo era grande e muito diferente do Laranjal e que podia ser meu. Se tentasse, se me atrevesse a sonhar e a fazer planos e havia anos que a imaginação era quase só o que tinha. Eu passara tardes e tardes em cima do terraço a ver os autocarros a parar, a despejar pessoas e a seguir caminho, enquanto eu ficava por ali, entre o quintal e as conversas da minha mãe, da tia Alice e das mulheres que vinham buscar bordados e sabia que não queria aquela vida. Desejava mais, queria sentir o Outono em Lisboa e comer castanhas, queria subir à Torre Eiffel, queria uma fotografia em Londres, queria o mundo.

Queria mesmo, com força, embora gostasse da casa e soubesse que teria saudades, que teria sempre saudades das tias, dos cães, dos cantos todos, do abraço do meu pai, da cumplicidade do meu irmão e da minha mãe, da falta de paciência para a cozinha e da inteligência para tudo. As saudades iriam moer-me por dentro, mas seria capaz de escrever sobre o vento frio na cara e os vendedores de castanhas ali à porta da estação do Rossio por ter visto, por ter lá estado, por ter passado por eles a caminho do metro nos tempos de estudante, nos meus 20 anos. A vida não seria de cor, de ouvir dizer, seria minha.

Marta Caires

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