Em nome do Medo
O verdadeiro testemunho de que se precisa é “um ataque terrorista foi evitado”
Desde o passado dia 13 o mundo já assistiu a três ataques violentos em massa (uso esta expressão já que existem debates científicos acerca do próprio conceito de terrorismo). O primeiro ocorreu na Escola Estadual Raul Brasil em São Paulo; o segundo, no dia 15, em duas mesquitas na Nova Zelândia; e, por fim, o terceiro no dia 18, na cidade de Utrecht, na Holanda. Todos estes acontecimentos foram protagonizados por indivíduos com diferentes antecedentes e, à primeira vista, com objetivos completamente diferentes: um foi causado por ex-alunos da dita escola; outro por um nacionalista radicalizado e o último por um imigrante turco já sinalizado pelas autoridades holandesas. Contudo, impõe-se a questão: não passarão estes acontecimentos de manifestações de suposto “poder” e dispersão do medo pela sociedade sem quaisquer intenções políticas? O terrorismo, tal como o nome insinua, tem por objetivo a aterrorização da sociedade ou comunidade com o objetivo de fazer cair os seus valores vigentes (é por isso que “terrorismo” e “revolução” são expressões que andam sempre de mãos dadas), mas é inconcebível pensar que estes autores alguma vez pensaram que as suas ações serviriam para a mudança de pensamentos sociais. Bem pelo contrário – ainda fortaleceram a resistência a estas doutrinas opressivas e violentas.
Tirando o caso brasileiro, que apesar de partilhar características comuns com o terrorismo “usual” não teve motivos políticos, tanto o massacre neozelandês com o atentado holandês só reforçaram a consciência coletiva contra os seus praticantes e autores morais, isto é, a sociedade global foi relembrada dos horrores que tanto um movimento como outro aceitam como válidos.
De forma a contrariar estes medos, toda a sociedade, com especial destaque o Estado, tem a obrigação de promover a segurança eficaz e comportamentos de proteção a estas ameaças que mais uma vez parecem se ter popularizado. E será que Portugal de facto trabalha bem neste sentido? A resposta é ambivalente: por um lado, temos forças de segurança eficazes, desde a PSP (destaque para a GOE, força antiterrorista portuguesa reconhecida pela sua extrema qualidade e competência) à PJ passando pela GNR e pelo SIS que até agora se têm mostrado mais que adequadas às nossas necessidades; por outro, a segurança realizada fora do âmbito do Estado é extremamente criticável.
Se não, vejamos a minha experiência pessoal: por motivos académicos resido em Portugal Continental há poucos anos e, como fã de música, sempre que tenho oportunidade vou a concertos. Nada de mais se, em aproximadamente 15 eventos a que fui, não tivesse sido revistado apenas duas vezes, o mesmo se passando com pessoas que até malas traziam para os ditos concertos. Lembre-se que há menos de quatro anos o ataque no salão de concertos do Bataclan em França deixou 90 mortos e, mesmo assim, tanto os proprietários destes espaços como o Estado permitem a entrada “à toa” em sítios onde o mesmo pode acontecer... Ilógico? Sim, sem dúvida.
Com esta reflexão não pretendo sugerir que tenhamos que começar a viver num país autoritário em que cada mínima ação seja registada e em que cidadãos, por diferença política ou diferença étnica, precisem de ser presos por nada terem feito. Quero antes dizer que a segurança tem que, de facto, ser produzida no seio da sociedade através da interação entre privados e públicos, cidadãos e Estado, uma segurança para impedir medos e seus produtos (aproveitamento político). É que dizer “só morreram três pessoas, podiam ter morrido muito mais” não é um testemunho de eficácia de um país na sua reação ao terrorismo. O verdadeiro testemunho de que se precisa é “um ataque terrorista foi evitado”.