ONU denuncia agravamento do conflito na Líbia e culpa países estrangeiros

Líbia /
18 Nov 2019 / 17:53 H.

O enviado da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Líbia, Ghassan Salamé, denunciou hoje um acentuado agravamento do conflito em Tripoli e responsabilizou a intervenção de vários países estrangeiros.

“Os perigos e as consequências diretas da interferência estrangeira são cada vez mais evidentes”, disse Salamé ao Conselho de Segurança da ONU por videoconferência a partir da Tunísia.

O diplomata afirmou que a crescente presença de mercenários e combatentes de organizações militares estrangeiras está a aumentar a violência e destacou que os ataques aéreos, especialmente o uso de drones (aparelhos aéreos não tripulados), se tornaram um elemento-chave de um conflito que, de outro modo, seria de baixa intensidade.

Segundo a ONU, desde que o marechal líbio Khalifa Haftar avançou com uma ofensiva militar em abril passado contra Tripoli, sede do governo de acordo nacional líbio estabelecido em 2015 e reconhecido pela organização, registaram-se pelo menos 800 ataques com aeronaves não tripuladas em seu favor.

Ao mesmo tempo, houve cerca de 240 ataques com drones em apoio ao governo de acordo nacional líbio.

Salamé iniciou a sua intervenção condenando o ataque aéreo que hoje atingiu uma fábrica de biscoitos nos subúrbios a sul de Tripoli e que matou pelo menos sete pessoas que ali trabalhavam, deixando outras 30 feridas, segundo o Ministério da Saúde local.

As recentes informações da ONU, por seu lado, indicam que o ataque resultou em 10 vítimas mortais e pelo menos 35 feridos.

As Nações Unidas estão a verificar o que aconteceu no ataque que, segundo Salamé, pode constituir um crime de guerra.

Fontes próximas ao governo apoiado pela ONU atribuíram o bombardeamento aos Emirados Árabes Unidos, aliado do marechal Haftar, que também tem apoio aéreo militar da Arábia Saudita e do Egito e apoio bélico da Rússia e da França.

O enviado da ONU assegurou que existe o risco de a participação estrangeira no conflito se sobrepor à nacional e que o futuro dos líbios não estará nas suas próprias mãos.

“É do interesse de todos os líbios rejeitar a interferência exterior nos assuntos do seu país e espero o seu apoio para exigir aos atores estrangeiros que cumpram com o embargo de armas e se comprometam a terminar o conflito antes que seja demasiado tarde”, afirmou Salamé.

A Líbia é um país imerso num caos político e securitário desde a queda do regime de Muammar Kadhafi em 2011 e devido a divisões e lutas de poder entre diversas milícias e tribos.

Alguns países estrangeiros têm sido acusados de conduzir uma guerra por procuração naquele território desde o início da ofensiva conduzida pelo marechal Haftar.

Leal a Haftar, o Exército Nacional Líbio é a maior e a mais bem organizada das muitas milícias que existem no território líbio e conta alegadamente com o apoio do Egito, dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita.

Já do lado do governo de acordo nacional líbio, os apoios apontados surgem do Qatar e da Turquia.

Os combates registados ao longo dos últimos meses já fizeram mais de 1.000 mortos e 120 mil deslocados, de acordo com as Nações Unidas.