Serei conservadora, mas não antiquada
Algumas pessoas dirão que eu tenho caraterísticas de mulher conservadora: a minha família é conservadora, sou católica, vou à missa e fui catequista durante uns 25 anos. Mas não sou antiquada. Assumo-me como mulher católica progressista, como tantas outras de sensibilidades políticas diferentes, na senda do Concílio Vaticano II e das encíclicas sociais dos papas João Paulo II ou do Papa Francisco.
É muito diferente ser conservadora e ser antiquada. E nada tem a ver com questões políticas e muito menos partidárias. Enquanto conservadora, aceito e compreendo o progresso, como um processo gradual de mutação da sociedade para um estado mais eficiente, desenvolvido e com melhores condições de vida para todos, sem que se coloque em causa a ordem pública e as instituições democráticas.
Por outro lado, ser antiquado significa rejeitar a evolução dos tempos e do que é novo e diferente, incluindo hábitos e conceitos contemporâneos, ou seja, é incapaz de se adaptar à atualidade, ficando preso a um passado romantizado. Uma pessoa antiquada olha para tudo o que é atual com desconfiança, apenas por ser diferente do passado. Não admite mudar o estado das coisas, porque não acredita beneficiar com isso e não consegue colocar-se no lugar das outras pessoas que vivem em condições diferentes da sua.
Do quadrante político onde me situo, a esquerda democrática, o progresso ocorre quando o crescimento económico e a inovação tecnológica se traduzem em igualdade de oportunidades, justiça social e bem-estar para todas a população.
É nesta perspetiva que me defino como progressista também, pois reconheço e comungo dos movimentos que permitiram o desenvolvimento social e humano, quebrando com culturas e tradições elitistas, machistas discriminatórias e antiquadas.
Por isso, não posso deixar de reconhecer que a igualdade e a dignidade de que hoje nós, mulheres, desfrutamos, foram conseguidas graças à coragem de movimentos progressistas. É exemplo disso a marcha contínua por direitos fundamentais levada a cabo pelo feminismo em Portugal, desde a chamada “primeira vaga”, no início do século XX, até à Revolução de 1974 e a Constituição de 1976 que representaram o momento charneira, com o estabelecimento, no papel, da igualdade plena entre homens e mulheres perante a lei.
Reconhecer este histórico não significa anular a fé ou as tradições pessoais. Significa compreender que a liberdade de poder escolher ser dona de casa, profissional de carreira, praticante religiosa ou ativista só existe porque o feminismo abriu as portas à cidadania plena. É a história destas lutas que hoje permite a qualquer mulher viver a sua fé e a sua vida com dignidade, voz e autonomia.