A escotilha
A maior distância está entre o que sabemos e o que temos coragem de fazer com o que sabemos
Há cheiros que a memória reconhece antes de darmos por isso. Preparava-me para entrevistar o comandante do NRP Zaire quando uma aragem trouxe um cheiro familiar. Vinha de uma chaminé. Reconheci-o.
Fiz a entrevista, mas qualquer coisa tinha ficado suspensa naquela aragem. Pelo meio, bússolas e cartas de marear atraíam-me o olhar. O navio seguia rumo às Desertas. Eu começava a perceber que aquela viagem não se fazia só no mar Atlântico.
Quando terminei, a curiosidade levou-me até à sala de estar dos praças, junto à cozinha. Era dali que vinha.
Entrecosto a assar. Preparava-se uma açorda. Alho, ervas aromáticas e pão. E um marinheiro de sorriso rasgado, visivelmente feliz, cozinhava para quem cumpria mais um dia no mar.
Já não saí dali.
De repente, ouvi na memória a voz da minha avó. A única filha mulher entre quatro rapazes. Havia nela uma ousadia e uma determinação raras nas mulheres do seu tempo. Uma mulher coerente, de valores que a acompanharam até ao último suspiro.
Com aquele cheiro vieram memórias. Como se o corpo tivesse chegado a elas antes de mim. A minha infância também tinha cheiro a verão no Alentejo.
A viagem corria serena. De repente, surgiram vagas maiores e o Zaire começou a adornar com força. Durante cerca de meia hora, tudo o que momentos antes parecia estável deixou de o ser.
Sentei-me. Olhei pela porta aberta e fixei o horizonte.
Pensei na facilidade com que a vida muda de mar. Está tudo bem e, de repente, surge um imprevisto. Depois outro. Acumulam-se exigências, responsabilidades, ruído, silêncios onde devia haver diálogo, ausência onde devia haver presença. O que até ali geríamos começa a pesar e queremos responder a tudo.
O que me salva nesses momentos é perguntar-me: o que é mais importante agora?
O mar acabaria por acalmar. Como quase tudo, de uma maneira ou de outra. E as Desertas começaram a crescer diante de nós. Era a minha segunda vez naquele santuário único no mundo. Estou habituada a espantar-me com elas a partir da Madeira, suficientemente longe para caberem inteiras num olhar. Aproximarmo-nos pelo mar é diferente. A rocha ganha altura, densidade, textura, imponência.
A distância faz isso com muitas coisas. Simplifica-as e ilude-nos.
De perto, quase nada é simples.
As Desertas não nos recebem. Toleram-nos. Quando lá chegamos, percebemos imediatamente que não somos nós a ditar as regras. Ali, a natureza conserva esse poder. Desembarquei e acompanhei a rendição dos vigilantes da natureza. Uns chegavam para ficar, outros preparavam-se para regressar. Naquele lugar remoto, cuidar também é isto: alguém fica para que outro possa voltar a casa. Eu fui fazer o que faço há décadas. Observar. Escutar. Perguntar. Compreender através de quem conhece aquilo que nós apenas visitamos. Há lugares que não conquistamos. Temos de merecer permanecer durante algum tempo. Enquanto os vigilantes transportavam os bens para as duas semanas seguintes, afastei-me. Nas Desertas, o silêncio é diferente. Está cheio de vento, mar, aves, pequenos movimentos que nos escapariam noutro lugar. Quando quase tudo o que nos distrai fica para trás, começamos a reparar no que está à nossa volta e no que se passa cá dentro.
Sentei-me numa pedra maior do que eu. Fiquei ali algum tempo. A contemplar.
Fui invadida pela liberdade de estar num lugar sem precisar imediatamente de fazer alguma coisa com ele. Sem o ocupar, sem o transformar, sem sequer o explicar.
Aquele território existe há quase quatro milhões de anos. Não precisava da minha presença, da minha opinião ou da minha interpretação. Eu é que precisava dele.
Ao longe, duas semanas de vida cabiam em caixas. Comida, água, o necessário.
A vida já me ensinou que só percebemos o que é essencial quando não podemos levar tudo. No regresso, já a bordo do Zaire, voltei a reparar naquela escotilha.
Do outro lado estava a Deserta Grande, enquadrada num círculo de metal grosso, construído para resistir ao mar. Fotografei. Através de uma escotilha conseguimos ver o que está do outro lado permanecendo protegidos deste.
E pensei na quantidade de vezes que fazemos isso na vida.
Olhamos para possibilidades, caminhos, mudanças, versões de nós que ainda não conhecemos. Às vezes desejamos o que está do outro lado. Outras vezes assusta-nos. Ficamos a olhar porque deste lado conhecemos as regras.
Recordei a viagem do herói, de Joseph Campbell. Ao estudar mitos de diferentes culturas, percebeu que muitas das grandes histórias da humanidade repetiam um percurso: alguém deixa o mundo conhecido, responde a um chamamento, atravessa um limiar, enfrenta provas, perde certezas, descobre recursos que desconhecia e regressa. Mas não regressa igual.
E nem sempre o chamamento tem alguma coisa de épico. Um dia em que o mar estava sereno e, de repente, deixou de estar, pode ser suficiente. Todos temos as nossas escotilhas.
No regresso, com a Madeira no horizente, pensei na minha avó. No mar. No horizonte. Nas Desertas. Tudo fazia parte da mesma viagem.
As cartas de marear. A bússola. O cheiro da infância. O mar a adornar o navio. O silêncio. A escotilha. O Zaire sabia desde manhã para onde ia. Eu julgava que também.
No final, regressávamos às mesmas coordenadas de onde tínhamos partido. E podemos voltar exatamente ao mesmo lugar sem regressarmos exatamente ao mesmo ponto. Campbell chamou-lhe o regresso. Eu gosto de pensar que é apenas a vida a fazer o seu trabalho.
Levar-nos. Desarrumar-nos. Despentear-nos. E devolver-nos a casa com um pouco mais de mundo cá dentro.