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O grande amor da minha vida

Há muito tempo que te queria escrever.

Não porque me tenham faltado palavras.

Mas porque há sentimentos que só se conseguem escrever quando finalmente os compreendemos.

Durante muito tempo pensei que o amor era uma escolha.

Hoje acredito que não.

Os grandes amores escolhem-nos primeiro.

E só mais tarde percebemos que nunca tivemos hipótese de lhes escapar.

Também eu parti.

Como tantos outros.

Levei sonhos, projetos e a vontade de descobrir o mundo.

Acreditei que era longe que encontraria o meu caminho.

E encontrei muito.

Conheci pessoas extraordinárias.

Aprendi.

Cresci.

Mas havia um vazio que nunca consegui explicar.

Era estranho.

Tudo parecia certo.

E, ao mesmo tempo, sentia que me faltava qualquer coisa.

Demorei anos a perceber que não me faltava uma oportunidade.

Nem uma cidade.

Nem um trabalho.

Faltavas tu.

Foi então que compreendi uma verdade simples.

Há pessoas que entram na nossa vida.

Mas há amores que são a nossa vida.

Há dias em que ainda hoje procuro apenas silêncio.

Subo ao Miradouro do Pico das Flores.

Espero que o sol comece a desaparecer sobre o Atlântico.

Ponho os auscultadores.

E deixo Caetano Veloso cantar Samba de Verão.

Nesse instante, o tempo deixa de existir.

O vento traz-me memórias.

O mar devolve-me a paz.

E percebo que há lugares capazes de abraçar uma pessoa sem lhe tocar.

Talvez seja isso o amor.

Não é precisar de estar sempre perto.

É descobrir que, por muito longe que estejamos, nunca deixámos verdadeiramente de pertencer.

Julho e agosto fazem-me pensar nisso.

Vejo os aviões chegarem cheios.

Vejo famílias que esperaram um ano inteiro por um abraço.

Vejo filhos que regressam para rever os pais.

Vejo netos a correr nas mesmas ruas onde os avós correram.

Vejo os arraiais voltarem a encher-se de vozes conhecidas.

E percebo que ninguém regressa apenas por causa do verão.

Regressa porque há amores que nunca aprendem a despedir-se.

Hoje já não tenho dúvidas.

Os grandes amores da nossa vida acontecem muito poucas vezes.

Há quem tenha a sorte de encontrar uma pessoa.

Eu tive a felicidade de encontrar um lugar.

Agora posso finalmente escrever aquilo que durante tanto tempo guardei só para mim.

O teu nome é Porto Santo.

E foi preciso partir para perceber que nunca te conseguiria deixar.

Porque há amores que passam.

Há amores que nos ensinam.

Há amores que nos mudam.

Mas há apenas um amor que nos chama sempre de volta.

Tu foste esse amor.

E talvez seja esse o maior privilégio de quem nasceu nesta ilha.

Podemos partir.

Podemos estudar longe.

Podemos trabalhar longe.

Podemos até convencer-nos de que a vida acontece noutro lugar.

Mas chega sempre um dia em que percebemos que o nosso lugar nunca deixou de estar à nossa espera.

Porque os grandes amores da vida…

…acontecem apenas uma vez.

E o meu sempre foste tu. Amo-te… Porto Santo…