Só tr(i)unfos
A atualidade política e social em Portugal, com particular incidência na Região Autónoma da Madeira, entrou numa fase de desgaste institucional, de ruído político e de crescente desconfiança pública. No plano das relações entre o Governo da República e as Regiões Autónomas, a promulgação presidencial das alterações ao novo modelo de atribuição do subsídio social de mobilidade. O pagamento apenas dos 79,00 €, que é o que nos interessa, ainda é uma miragem, e como se assiste de forma mal disfarçada, os governantes de cá e de lá dormem bem com isso, desde que os aviões carreguem visitantes para engordar as estatísticas e a monocultura reinante.
O arquipélago vive há anos sob forte pressão turística. O que é vendido como êxito económico tornou-se, em muitos pontos, numa fonte de asfixia social e degradação da qualidade de vida. A massificação turística está a corroer o equilíbrio entre território, residentes e visitantes, transformando a ilha numa desoladora montra onde tudo se consome depressa, menos a resolução dos problemas. A falta de habitação acessível e a descaracterização de espaços são hoje sintomas visíveis de uma política que preferiu celebrar números em vez de mitigar as más consequências. Até sectores da Igreja já surfam a onda do alojamento local, agregado à borla do IMI, pelo que o drama da habitação na ótica da diocese fica-se pelas ocas homilias. Os vendilhões de pombas e cambistas do templo, transformando-o em “covil de ladrões”, relatados pelo evangelista Mateus, já arrendam o próprio património. A exegese bíblica é mais elástica que a sofística clássica.
No plano judicial, o cenário é também sério. O Tribunal da Relação confirmou recentemente a existência de fortes indícios de corrupção e fraude fiscal envolvendo figuras políticas de relevo da Região, validando os indícios da operação judicial de janeiro de 2024, que determinou a queda do então presidente da câmara do Funchal e a crise de governabilidade regional. O processo lançou sombras sobre a construção do novo hospital da Madeira e agora pode empurrar o custo final para perto dos mil milhões de euros. O projeto deixou de ser apenas uma infraestrutura de saúde para ser um teste à transparência, e à capacidade de alguém explicar por que razão tudo o que é público acaba tão frequentemente por sair mais caro do que devia.
A ALRAM colocou de quarentena o secretário Eduardo Jesus e nem foi por causa sanitária ou de(falta de) pimenta na língua. Foi para o menino não sofrer qualquer “dóidói” na intimação do Ministério Público. Que belo exemplo de governança!
O triunfo só bafeja os mesmos e o miserabilismo destas linhas infelizmente não pode ser refutado pelas estatísticas. Justifica-se porém nos exemplos.