Golfe, muito mais do que um desporto
O golfe tem vindo a dominar o debate público na Madeira nos últimos meses. Da ironia ao escárnio, do combate político à mitologia são vários os argumentos, na maioria utilizados sem rigor ou conhecimento.
Responsáveis por um legado histórico iniciado há mais de 100 anos, quando em 1914 Francisco Heredia, Conde da Ribeira Brava, lançou o debate da importância do golfe para o turismo e para o perigo da Madeira perder para a concorrência de outros destinos turísticos já equipados com campos de golfe, sentimos a responsabilidade de recentrar o debate.
O golfe é uma indústria. Não é um desporto de uma elite de ricos.
O golfe tem um impacto significativo no turismo e na economia.
Em Portugal representa 1,6% do PIB, de uma produção total de 760,5 milhões de euros, num Valor Acrescentado Bruto (VAB) de 407,9 milhões de euros, numa receita fiscal (IVA e IRS) de 70,2 milhões de euros e ainda em remunerações de 143,5 milhões de euros.
O valor económico do sector do golfe deve considerar o efeito catalisador que o mesmo tem na economia, tal como, entre outros, a hotelaria, restauração ou transportes, sendo que, tudo somado, o impacto do golfe em Portugal ascende aos 4.174 milhões de euros.
O Algarve contribui com a maior fatia (84%) da riqueza gerada pela indústria do golfe. Mas há outras regiões onde o golfe começa hoje a ter um impacto mais significativo, como é o caso da Madeira.
Golfe, imobiliária e conexas
Os dados são de um estudo da NOVA School of Business and Economics, que num estudo intitulado “Avaliação do Impacto da Indústria do Golfe em Portugal por via do de recensear Turismo Residencial e do Mercado Imobiliário” detalha que a componente da construção representa a maior fatia do impacto económico do setor, com uma produção avaliada em 679 milhões de euros e um VAB de 344 milhões.
O peso do golfe no turismo residencial e no setor imobiliário, representa 12% da construção total de alojamentos turísticos e resorts, 12% da mediação imobiliária de venda e 24% da mediação de revenda.
Ao todo, contabilizavam-se 9.266 unidades de alojamento com golfe ou próximas de campos de golfe em Portugal em 2024, das quais 2.595 foram licenciadas nos últimos dez anos, de acordo com o Registo Nacional de Empreendimentos Turísticos (RNET).
Durante a década em análise, o investimento (líquido de importações) em novas unidades licenciadas atingiu os 270,29 milhões de euros, enquanto a mediação imobiliária na venda e revenda de unidades terá sido de 58,76 milhões de euros.
Segundo dados da European Tour Destinations, o “prémio imobiliário” associado à proximidade de campos de golfe é, em média, 19% superior em comparação com propriedades fora desses empreendimentos.
O sector do golfe representou 2,2% do emprego nacional.
Os resultados deste estudo confirmam que o golfe é um setor estratégico para o país, com efeitos estruturais que ultrapassam o turismo e se estendem à construção e ao investimento residencial. É um ativo económico com forte capacidade de criação de valor e emprego.
Porquê golfe?
O turista de golfe gasta, em média, 3 a 5 vezes mais do que um turista convencional, com um gasto diário estimado em cerca de 260 euros. E permanece mais dias no destino.
O golfe é um produto turístico que diversifica a oferta, que acrescenta valor e atrai um novo turista.
Os gastos destes turistas são direcionados para um alojamento de qualidade, green fees (acesso ao campo), aluguer de equipamento, restauração e lazer. São turistas exigentes que procuram experiências premium.
Ou seja, a receita direta de 4,4 milhões de euros divulgada nas estatísticas oficiais retrata apenas os green fee cobrados pelos campos da Madeira, representando 50% dos gastos diretos de um turista de golfe, não incluindo outros serviços e produtos do campo de golfe, bem como fora deste.
Estima-se que na Madeira o golfe seja responsável por mais de 30 milhões de euros - acesso ao campo, serviços, alojamento, viagens, transportes, restauração, rent-a-cars, etc - , ou seja 4,3% da receita turística.
Na guerra de argumentos e de lobbies, há números curiosos. O Jardim Botânico recebe 450 mil visitantes por ano, gerando dois milhões de receita. O mesmo que um campo de golfe, com apenas seis a sete mil clientes por ano.
Quem joga?
Deverão ser 22 mil os turistas que jogam golfe na Madeira. Eles representam 76% das voltas e 85% da receita dos campos.
Ou seja, apenas 15% da receita dos campos é assegurada por madeirenses ou residentes.
A Madeira tem cerca de quatrocentos jogadores de golfe residentes, com licença desportiva e certificado de handicap.
Outros exemplos
Portugal tem cerca de 89 campos de golfe. Destes, metade estão no Algarve, que recebe um total de 5,3 milhões de turistas.
Canárias tem 23 campos - nove em Tenerife, sete em Gran Canaria, dois em Lanzarote, quatro em Fuerteventura e um em La Gomera - e um total de 18,6 milhões de turistas.
A Madeira tem 3 campos de golfe e recebe 2,2 milhões de turistas.
Mitologia urbana
As questões ambientais e o consumo da água alimentam, também, os lobbies.
Na Madeira a água necessária para a rega dos campos de golfe representa 1,1% da água destinada ao regadio. E menos de 0,5% do total da água fornecida, para consumo humano, regadio agrícola e demais atividades.
Os campos de golfe pagam 0,231 cêntimos por m3 de água. O agricultor paga 0,033 cêntimos, ou seja os campos de golfe pagam sete vez mais cara a água de rega.
Um estudo desenvolvido no Algarve revela que cada hm3 de água utilizado na agricultura gera cerca de 845.000 euros de riqueza e cada hm3 utilizado na rega dos campos de golfe gera quase de 33 milhões de euros na região do Algarve.
Ainda segundo este estudo 56% da água consumida no Algarve destina-se ao uso agrícola; 37% ao consumo público e 7% aos campos de golfe.
Ou seja, por cada metro cúbico de água usado para regar os campos de golfe no Algarve produz 28 vezes mais valor que a mesma quantidade de água utilizada na rega agrícola.
No Santo da Serra foram plantadas nos últimos anos 27 mil árvores e pequenos arbustos endémicos e de espécies exóticas, tendo sido retirados eucaliptos e outras espécies invasoras.
Os campos de golfe são autênticos pulmões verdes, geradores de oxigénio e uma barreira de defesa da paisagem.