Greve Geral: parar para resistir
Há momentos em que um país tem de decidir de que lado quer estar. Do lado de quem trabalha e produz riqueza ou do lado de quem vê os trabalhadores apenas como números descartáveis numa folha de Excel. O chamado novo pacote laboral que o Governo prepara representa precisamente essa escolha.
Sob o pretexto da “modernização” e da “flexibilização” do mercado de trabalho, aquilo que o governo pretende é dar mais um passo no aprofundamento da precariedade, da fragilização dos vínculos laborais e da diminuição dos direitos conquistados ao longo de décadas de luta sindical e social. A narrativa é sempre a mesma: dizem-nos que é preciso facilitar despedimentos, aumentar a adaptabilidade, flexibilizar horários e aliviar “custos” para as empresas. Mas aquilo a que chamam custos são vidas humanas, famílias, estabilidade e dignidade.
As posições assumidas pelas centrais sindicais e por vários setores da sociedade portuguesa dão razão aos que denunciam este pacote laboral como um ataque sem precedentes ao mundo do trabalho. Entre as medidas discutidas surgem propostas que facilitam o recurso ao outsourcing, reabrem portas a mecanismos semelhantes ao banco de horas individual e tornam mais frágeis os mecanismos de proteção no despedimento. Tudo isto num país onde milhares de trabalhadores já vivem com salários insuficientes, vínculos precários e horários desregulados.
O mais grave é que este ataque acontece num contexto em que o custo de vida continua a esmagar quem trabalha. Há cada vez mais pessoas com dois empregos para conseguirem pagar renda, alimentação e despesas básicas. Em vez de responder a esta realidade com melhores salários, reforço da contratação coletiva e valorização do trabalho, o Governo insiste numa agenda ideológica alinhada com os interesses do grande patronato.
Não deixa de ser revelador que as organizações patronais surjam satisfeitas com o rumo das negociações, e até declarem estar abertas a fazer algumas “cedências” para salvarem uma “negociação” de um pacote laboral que irá piorar a vida os trabalhadores e beneficiar os que continuam a explorar quem trabalha.
Por isso, a greve geral convocada para 3 de Junho assume uma importância decisiva. Não é apenas uma jornada de protesto. É uma demonstração coletiva de que os trabalhadores não aceitam regressar a um modelo laboral assente no medo, na submissão e na desproteção. A história demonstra que nenhum direito laboral relevante foi oferecido espontaneamente pelos governos ou pelo poder económico. Todos foram conquistados através da luta, da organização e da resistência.
A adesão à greve geral é, hoje, uma questão de responsabilidade social e democrática. Porque aquilo que está em causa não é apenas o presente de quem trabalha, mas também o futuro das próximas gerações. Se este pacote avançar sem resistência, abrir-se-á caminho para uma sociedade mais desigual, mais insegura e mais injusta.
No dia 3 de Junho, parar será uma forma de defender a dignidade do trabalho e afirmar que Portugal não pode continuar a construir prosperidade à custa da exploração de quem trabalha.