Sonhando com o Metro mas a tropeçar no passeio
A ideia não é nova, mas ter um metro entre Santa Cruz e o Funchal, surgiu nos últimos dias como a solução quase redentora para os persistentes problemas de mobilidade na costa leste da Madeira.
A via rápida, principal eixo de ligação ao Funchal, permanece sob forte pressão, sobretudo nas horas de ponta. Circulação lenta e tempos de viagem imprevisíveis tornaram-se parte da rotina dos automobilistas, que de manhã ou à tarde desejam que não aconteça nenhum acidente que venha complicar ainda mais um trajeto já de si complicado.
É verdade que a competência das vias intermunicipais cabe ao Governo Regional, pelo que será a este que compete trabalhar para encontrar (e implementar!) as medidas necessárias.
Mas ninguém faz nada sozinho, pelo que cabe também a cada município fazer a sua parte, e um qualquer metro nunca poderá ser apontado como solução enquanto persistirem problemas estruturais básicos.
A mobilidade não começa no metro; começa no passeio à porta de casa, na paragem de autocarro acessível, na possibilidade de deixar o carro e optar por transporte público de forma cómoda e eficaz. E em Santa Cruz, há ainda um longo caminho a percorrer nesse nível mais elementar.
E as soluções, curiosamente, não exigem todas túneis ou carris. Há medidas práticas e exequíveis poderiam ter impacto imediato.
Exemplos? Deixo três!
- Trabalhar em conjunto com as empresas de transporte público para ampliar a oferta a nível de carreiras dentro do concelho através da melhoria de acessos e de condições para a espera dos passageiros.
- Criar de bolsas de estacionamento gratuito nas freguesias, destinadas a utilizadores de passe, incentivando a utilização do transporte público e reduzindo a pressão sobre a via rápida.
- Implementar limites horários para a circulação de camiões, em articulação com os concelhos vizinhos e o Governo Regional, o que poderia melhorar significativamente a fluidez nos períodos críticos.
Mas particularmente preocupante é a situação dos cidadãos com mobilidade reduzida. Em todas as freguesias do concelho, os obstáculos são evidentes: wc públicos só acessíveis através de escadas, passeios estreitos ou inexistentes, rampas mal concebidas, desníveis perigosos e descontinuidade nos percursos pedonais. Para muitos, deslocar-se alguns metros pode ser um desafio maior do que atravessar o concelho inteiro.
Depois de 12 anos de gestão camarária em que nada se fez a este nível (vá lá que apareceu agora um estudo…), está na altura de olhar para todas estas questões de uma forma objetiva, resolvendo primeiro as ‘pequenas coisas’, que para muitos se transformam em grandes obstáculos. Antes de sonhar com o metro, temos de deixar de tropeçar no passeio, porque falar de mobilidade moderna sem garantir acessibilidade universal não é apenas uma falha técnica — é uma incoerência profunda.
Quando os passeios forem verdadeiramente acessíveis, os autocarros eficientes e o trânsito mais equilibrado, talvez possamos discutir com maior serenidade soluções de maior escala. Até lá, o metro arrisca-se a permanecer como um símbolo de ambição desfasada — uma promessa elevada sobre um terreno que ainda não foi devidamente preparado.
Em matéria de mobilidade, Santa Cruz precisa menos de anúncios grandiosos e mais de respostas concretas.
Porque, no fim, o verdadeiro progresso mede-se não pela grandiosidade das ideias, mas pela capacidade de melhorar o dia a dia de todos, sem exceção.