Trump: o pacificador dos bolsos
Trump prometeu acabar com as guerras. Era quase bíblico: chegaria, levantaria a mão e os conflitos desapareceriam como o Mar Vermelho diante de Moisés. A realidade, porém, tem sido mais modesta: não acabou nenhuma. Em compensação, inaugurou algumas distracções novas, porque na política moderna o essencial não é resolver problemas — é mudar de assunto a tempo. Antes disso, fez a sua tradicional romaria ao Médio Oriente, onde entre negócios, fotografias e luxos orientais até recebeu um avião. Nada de estranho: há quem receba medalhas, Trump recebe aviões. É uma espécie de upgrade diplomático — outros ganham lembranças de porcelana, ele sai com um Boeing. Diplomacia “low cost” para quem oferece o avião.
Pelo caminho paira sempre o incómodo fantasma Epstein. Um escândalo que não nasceu de Trump, é verdade, mas cuja proximidade social não ajuda à digestão pública. Quando esses temas começam a aparecer demasiado nas manchetes, a política tem uma técnica antiga: cria-se ruído. Um inimigo novo, uma tensão internacional, uma demissão conveniente — como a da Homeland Security — e de repente toda a gente discute outra coisa. A próxima será Procuradora- geral .
Entretanto, os amigos milionários espalhados pelo Dubai e arredores podem começar a fazer as malas. Nada une tanto o patriotismo como a instabilidade global — especialmente quando o refúgio continua a ser Wall Street. Trump continua assim no seu papel favorito: o de lunático funcional. Um homem que fala de paz enquanto reorganiza o caos, como quem promete silêncio numa discoteca abrindo mais duas colunas de som. Ou, dito de outra forma: é provavelmente o único mediador internacional que acredita que apagar incêndios se faz com gasolina premium.
E enquanto o mundo se entretém com este espetáculo, a Europa vai sobrevivendo, como sempre fez, desde que a tem uma ideia , entre o ceticismo e a paciência histórica. Já Portugal mantém o seu talento especial para discutir o acessório enquanto o essencial passa ao lado. País curioso este onde, quase ao mesmo tempo, desaparecem duas figuras relevantes da nossa vida pública — António Lobo Antunes, uma das maiores vozes literárias portuguesas, e Nuno Morais Sarmento, político e pensador que marcou uma geração — e ainda assim o espaço mediático consegue gastar mais tempo com polémicas descartáveis do que a refletir sobre o legado de quem verdadeiramente pensou o país.
Talvez seja essa a ironia do nosso tempo: enquanto um milionário americano transforma a política internacional num reality show permanente, nós assistimos confortavelmente no sofá, discutindo trivialidades… como se a história não estivesse a ser escrita, todos os dias, por guionistas cada vez mais improváveis.