Uma câmara que dá (muito) lucro
Santa Cruz é a minha casa há quase 57 anos. Desde que nasci, apenas por um ano não morei no meu concelho.
A pátria chamou, o serviço militar obrigatório levou-me primeiro para o curso de sargentos em Mafra, e depois, já como furriel, para o 1º Regimento de Infantaria, em Tomar.
Mas doze meses depois estava de volta, e nunca mais de cá saí.
Foi aqui que nasci, cresci, formei família, criei os meus filhos, tenho os meus amigos. É um concelho lindíssimo e versátil, com uma frente mar única, um clima fantástico (dispensava-se talvez algum vento), e a sua maior valia, gente simples e acolhedora.
E tem também uma característica única no mundo, pelo menos há uns anos a esta parte:
Investimentos que são prometidos todos os anos, mas que nunca chegam. Querem exemplos?
A remodelação da praça de táxis do Caniço, a renovação da frente mar e do mercado de Santa Cruz, a aquisição de um novo autocarro para o transporte dos munícipes…
É quase tradição.
Novembro chega e lá vem o anúncio para o ano seguinte:
“Primeiro pagámos a dívida, depois consolidamos a dívida. Agora é que vai ser! Para o ano vamos investir a sério e fazer as obras de que o concelho tanto precisa!”
Os santacruzenses já nem precisam de calendário — basta ouvir as promessas para saber que um novo ano vai começar.
Parece aqueles amigos que cada vez que encontramos na rua dizem “um dia destes eu apareço lá em casa”, mas nunca vem.
Mas se não temos obras e investimentos, temos outra coisa. Saldos de gerência cada vez maiores no orçamento municipal.
Uns colecionam selos, outros colecionam moedas antigas… a nossa Câmara coleciona saldos de gerência.
Em 2025 foram 13 milhões de euros, o que é excelente, pois uma regra básica de qualquer boa gestão é gastar menos do que se recebe. Mas não precisava de ser tanto!
Gastou-se menos que o previsto em algumas coisas. Ótimo! Recebeu-se mais do que o orçamentado. Ainda melhor!
Só que no caso de Santa Cruz sobrou (só em 2025) 25% do que estava previsto, o que até acaba por não ser difícil de explicar, pois os investimentos continuam por fazer.
Às tantas, está na hora de mudar o slogan do concelho. Deixo aqui uma proposta:
“Santa Cruz — onde há mais dinheiro parado que obras em andamento.”
Apesar de tudo isto, Santa Cruz continua a ser um concelho fantástico.
Tem potencial, tem recursos e tem população com enorme vontade de contribuir para o desenvolvimento do concelho.
Falta apenas que as obras deixem de ser apenas promessas adiadas e passem a ser prioridade para quem governa o município.
O concelho precisa e a população merece.