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Crónicas

Parar antes que o cérebro pare

O cérebro não grita quando está exausto. Primeiro sussurra

Como mãe e jornalista, aprendi a viver em permanente estado de alerta. Sempre disponível. Sempre pronta. Notícias de última hora, prazos apertados, a pressão silenciosa de estar sempre informada.

Foi nesse contexto que me chegou agora às mãos Um cérebro (des)cansado, o livro de Ana Santos, editado pela Planeta.

O cérebro entra num modo curioso que os cientistas chamam hiperativação. Parece eficiência. Mas muitas vezes é apenas sobrevivência cognitiva.

Durante demasiado tempo convenci-me de que aquele cansaço constante era apenas o preço de uma vida intensa. Quase acreditei que era normal. Até que comecei a reparar numa coisa desconfortável. Estava cansada mesmo quando não havia motivo aparente. Lia um texto três vezes para o compreender totalmente. Perdia o foco a meio de tarefas simples. Esquecia-me do que ia fazer no momento seguinte. Não era drama. Era desgaste. E, nos últimos três anos, uma perimenopausa cada vez mais intensa.

Foi nessa altura que comecei a perceber que talvez não fosse falta de disciplina ou de organização. Talvez fosse biologia.

Comecei então a investigar aquilo a que muitos investigadores chamam hoje neuroinflamação.

O termo pode soar técnico, quase distante. Mas a ideia é muito simples. Quando o corpo vive demasiado tempo em modo de stress, com má alimentação, privação de sono ou sobrecarga emocional, o sistema imunitário pode manter um estado inflamatório silencioso que também atinge o cérebro.

E o cérebro inflamado não grita. Ele sussurra.

Sussurra através da fadiga mental. Da dificuldade em tomar decisões. Da irritabilidade que aparece sem explicação aparente. Da sensação de estar sempre um passo atrás da própria vida.

Não é coincidência que muitos destes sintomas sejam hoje quase normalizados numa sociedade que vive em piloto automático e no imediatismo.

A ciência tem vindo a demonstrar que fatores aparentemente banais têm um impacto profundo no funcionamento cerebral. Dietas ricas em açúcar e ultraprocessados. Stress crónico. Sono insuficiente. Sedentarismo.

Tudo isto pode aumentar a libertação de moléculas inflamatórias que acabam por interferir com a comunicação entre neurónios.

Traduzido para linguagem do quotidiano, o cérebro começa a trabalhar em modo de baixa eficiência.

O mais curioso é que a solução raramente está em algo extraordinário. Está muitas vezes em voltar ao básico. Gosto cada vez mais da expressão ‘back to the basics’.

Mover o corpo com regularidade porque o exercício aumenta a circulação cerebral e estimula a formação de novas ligações neuronais. Dormir com qualidade porque durante o sono o cérebro literalmente limpa resíduos metabólicos acumulados ao longo do dia. Alimentarmo-nos de forma simples e rica em nutrientes porque aquilo que comemos influencia diretamente a inflamação do organismo. Cultivar relações humanas significativas porque a ligação social modula hormonas como a oxitocina e reduz o impacto do stress.

Nada disto é revolucionário. E é exatamente por isso que tantas vezes ignoramos.

Vivemos numa cultura que procura soluções rápidas para problemas lentos. Mas a verdade é mais humilde e mais exigente. O cérebro também precisa de higiene diária. E essa higiene começa no intestino, o cérebro entérico.

Hoje olho para aquele período da minha vida com gratidão. Foi o momento em que o meu inconsciente trouxe para o consciente que produtividade não é o mesmo que clareza mental. E que viver permanentemente cansada não é um troféu pessoal nem profissional. É um sinal. E é perigoso.

Outra coisa que adorei neste livro foi o plano para um cérebro à prova de inflamação. A autora explica de forma muito clara como pequenas escolhas alimentares podem ter um impacto profundo no funcionamento do cérebro. A importância de ingerir boas fontes de proteína de forma equilibrada. O papel dos alimentos ricos em fibra na saúde do intestino. O aumento do consumo de probióticos e de gorduras boas, incluindo o tão estudado ómega-3, que participa diretamente nos processos inflamatórios e na comunicação entre neurónios.

Estou cada vez mais convencida de que o verdadeiro desafio contemporâneo não é trabalhar mais, produzir mais ou correr mais depressa. É provavelmente algo muito mais difícil.

Aprender a parar antes que o cérebro nos obrigue a fazê-lo.

Porque o corpo fala sempre.

A questão é: estamos a escutá-lo?