Quando a Casa deixa de ser Abrigo
O dia 8 de março, em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, é muitas vezes utilizado, e bem, para recordar as situações de desigualdade que ainda persistem em pleno século XXI, não só na Madeira, mas um pouco por todo o mundo. É também um momento em que olhamos com maior atenção para o drama da violência doméstica, que continua a atingir tantas famílias na nossa Região e no país, tendo quase sempre como principais vítimas as mulheres e as crianças.
Há quem defenda que, neste dia, deveríamos dar mais destaque a outras conquistas ainda por alcançar para que a igualdade entre homens e mulheres seja plena. Concordo que o debate não se deve limitar à violência doméstica. No entanto, infelizmente, é impossível ignorá-la. Quem trabalha de perto com as famílias e acompanha esta realidade no terreno conhece bem as consequências profundas e duradouras que este tipo de violência provoca.
A violência doméstica não destrói apenas relações: destrói autoestima, fragiliza projetos de vida e deixa marcas que perduram por muitos anos. E se as mulheres são frequentemente as vítimas mais visíveis, há uma dimensão que muitas vezes permanece menos discutida no espaço público: o impacto desta violência nas crianças e jovens que crescem nestes contextos. Os filhos das vítimas são também vítimas. Assistir à agressão, viver num ambiente de medo e instabilidade, ou crescer entre conflitos permanentes pode marcar profundamente o desenvolvimento emocional, social e até escolar de uma criança.
Por isso, quando falamos de violência doméstica, não falamos apenas de um problema privado ou familiar. Falamos de um problema social que exige prevenção, proteção e respostas consistentes das instituições, mas também uma mudança cultural que rejeite qualquer forma de violência dentro de casa.
Neste Dia Internacional da Mulher, importa lembrar que a luta pela dignidade e pela segurança das mulheres não termina nas nossas fronteiras. Em muitas partes do mundo, mulheres e crianças continuam a ser as primeiras vítimas da violência, da pobreza e da guerra. Hoje, como em tantos outros momentos da história, vemos populações inteiras expostas ao sofrimento provocado por conflitos armados, como acontece no Irão, na Ucrânia ou na Palestina.
Quando caem bombas ou se intensificam confrontos militares, são quase sempre as mulheres e as crianças que pagam o preço mais alto: perdem casas, segurança, acesso à educação, à saúde e, muitas vezes, a própria vida. Num mundo que se quer mais justo e humano, não podemos aceitar que a guerra continue a ser apresentada como solução.
Recordar o Dia da Mulher é também afirmar um compromisso com a paz, com os direitos humanos e com a proteção de todas as mulheres e crianças, onde quer que vivam. Porque nenhuma sociedade pode considerar-se verdadeiramente desenvolvida enquanto persistirem a violência dentro de casa e a violência entre nações.