O indivíduo coopera ou não coopera?
Recentemente fiz uma pequena viagem ao passado. Não foi uma viagem planeada, dessas que se marcam na agenda com meses de antecedência. Foi uma viagem inesperada, provocada por uma frase que encontrei ao entrar na sede da Liga Portuguesa Contra o Cancro, no Funchal, onde me desloquei para apresentar duas iniciativas solidárias do Conservatório, realizadas em parceria com a própria Liga, o Teatro Municipal Baltazar Dias e a Banda Militar. Na parede da sala estava escrita uma frase simples: “Juntos somos mais fortes.”
Frases assim aparecem muitas vezes em campanhas e, por vezes, passam-nos ao lado. Mas naquele momento, ao ler aquela frase, recuei vários anos até à minha primeira aula de Iniciação à Sociologia, na Universidade Nova de Lisboa. A professora entrou na sala, olhou para nós e começou com a seguinte afirmação: “A primeira divisão fundamental é esta: o indivíduo coopera ou não coopera.” Explicou então que, se coopera, temos sociedade; se não coopera, ficamos apenas com indivíduos isolados. E naquele momento, na sede da Liga, percebi que se estava exatamente a fazer isso: a construir sociedade, através dessa solidariedade que funciona como o cimento invisível que mantém as comunidades unidas. Podemos discordar, competir e debater ideias com intensidade. Mas, sem um mínimo de cooperação, não há escola que funcione, não há comunidade que se organize e não há projeto cultural que sobreviva.
Talvez por isso as duas iniciativas que apresentámos nesse dia façam tanto sentido. A primeira é o espetáculo “História Alegre de Portugal”, que sobe ao palco hoje e amanhã no Teatro Municipal Baltazar Dias, reunindo alunos e professores numa produção que cruza música, teatro e pedagogia, cuja receita reverte a favor da Liga Portuguesa Contra o Cancro. A segunda será o Concerto de Primavera, no dia 21 de março, no Centro de Congressos da Madeira, com a Orquestra de Sopros do Conservatório, o grupo vocal Ninfas do Atlântico e a Banda Militar da Madeira. Dois momentos artísticos distintos, mas unidos pela mesma ideia: colocar a arte ao serviço da comunidade e transformar a música num gesto concreto de solidariedade.
Ponte Cultural no Porto Santo
Essa ideia tornou-se particularmente evidente enquanto trabalhávamos na preparação da Temporada artística que o Conservatório organiza pela primeira vez no Porto Santo. A Madeira e o Porto Santo são duas ilhas próximas geograficamente, mas que muitas vezes vivem culturalmente de forma relativamente separada. Um arquipélago, no entanto, constrói-se com pontes e não com distâncias. É dessa convicção que nasce a Ponte Cultural no Porto Santo, um projeto pensado para promover a circulação de alunos, professores, repertórios e experiências artísticas entre as duas ilhas.
Aqui a cooperação institucional torna-se decisiva. A Câmara Municipal do Porto Santo tem sido um parceiro fundamental na criação de condições locais. A Sociedade de Desenvolvimento da Madeira garante enquadramento e infraestrutura. O Grupo Sousa assegura a mobilidade marítima que permite transportar alunos, professores, viaturas e instrumentos entre as ilhas. O Vila Baleira Porto Santo acolhe os nossos jovens músicos. A Trivalor contribui logisticamente com refeições para o projeto. Cada entidade tem a sua identidade própria, as suas prioridades e a sua forma de trabalhar. Mas todas decidiram cooperar em torno de um objetivo comum.
Há também uma dimensão humana que muitas vezes passa despercebida nestes projetos. Quando um aluno atravessa o mar da Madeira para tocar no Porto Santo, algo acontece que vai muito além da música. Há crescimento pessoal. E num tempo em que grande parte da experiência cultural parece acontecer através de ecrãs, atravessar o mar para partilhar arte continua a ser um gesto profundamente educativo. Viajar promove autonomia, convivência e pertença regional. Nesse sentido, estes projetos são também profundamente políticos, no melhor sentido da palavra: ajudam a construir comunidade e a cultura é uma das formas mais visíveis dessa cooperação. E quando duas ilhas cooperam através da educação artística, não estamos apenas a organizar concertos. Estamos, de forma muito concreta, a construir sociedade.
Pedro e o Lobo Marinho
Uma última nota à margem merece também ser registada. No final de fevereiro foi particularmente bonito assistir à Orquestra Sinfónica do Conservatório a apresentar a obra original para crianças “Pedro e o Lobo Marinho”. A obra é da autoria do compositor madeirense João Caldeira e tem uma qualidade musical notável, mas distingue-se sobretudo pela forma como envolve o público. Em vários momentos do espetáculo, as crianças são convidadas a participar em pequenos gestos musicais, tocando flauta, cantando ou mesmo com percussão corporal, criando-se uma ligação imediata entre a orquestra e a plateia. O resultado é uma atmosfera de grande entusiasmo.
A dimensão visual do espetáculo contribuiu igualmente para essa experiência. O professor Alexandre Neves criou uma narrativa visual de grande sensibilidade estética que acompanhou a música e ajudou a transportar o público para o universo da história. Merece também destaque o trabalho do professor e maestro Francisco Loreto, que mais uma vez conduziu com grande qualidade a Orquestra Sinfónica do Conservatório, revelando o excelente nível artístico que estes jovens músicos têm vindo a alcançar. No fundo, momentos como este lembram-nos que a educação artística não é apenas aprendizagem musical, sendo também um espaço onde crianças, jovens, professores e público se encontram e constroem algo em comum. E é precisamente nesses encontros que, muitas vezes sem darmos por isso, se vai construindo sociedade.