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Guerra e desglobalização

A atual agressão militar dos EUA e Israel desencadeada contra o Irão amplia a turbulência política e a crise económica, acelera a fragmentação do sistema internacional, está a provocar realinhamentos estratégicos, interrompe cruciais fluxos energéticos e está a agudizar o confronto entre blocos rivais.

O mundo foi lançado para um estado de “conflito permanente abaixo do limiar da guerra total”.

Durante algum tempo foi predominante uma narrativa da “globalização”. Prevaleceu a ideia de que o mundo caminharia para uma paz entre grandes potências, os países tenderiam para a crescente integração económica e reinaria a expansão do livre comércio, vingariam cadeias produtivas globais, e haveria o triunfo inevitável da chamada “democracia liberal”, num quadro de interdependência entre países.

Pelo contrário, está a acontecer a decomposição daquela conceção do mundo. Quando muito está em curso a desglobalização: os conflitos estruturais agravam-se, o liberalismo não se tornou universal, os confrontos entre economias e modelos políticos intensificam-se. Em vez do anunciado “fim da história”, temos o retorno da história, da sua complexidade e dos seus conflitos.

Eventos como o Brexit, a guerra comercial EUA–China e as ruturas nas cadeias produtivas após a pandemia mostraram que a globalização não seria tão linear e estável quanto prometida.

O que vemos é a desglobalização a ser impulsionada, de modo desenfreado, por brutais tensões sistémicas, prosseguindo uma feroz competição tecnológica e disputa armamentista, num quadro de pressões ecológicas severas.

Num contexto de dívida financeira e ecológica que se tornou insustentável, as grandes potências procuram apropriar-se dos recursos dos seus vassalos.

Esta desglobalização eclode num quadro de agravamento das desigualdades sociais e territoriais, num mundo mais dividido e condicionado por relações de hostilidade entre os povos.

A crise tornou-se onipresente em diversas áreas, permeou os noticiários políticos. Agora, atingiu seu ápice diante das convulsões e ataques que abalam as nossas sociedades, tanto externa quanto internamente.

E a agressão militar ao Irão é parte deste vasto processo, insere-se no plano imperialista de tentar impor, pela via da força, um desesperado domínio no mundo e um controlo de recursos energéticos fundamentais.

A agressão militar dos EUA e Israel ao Irão é uma das etapas da desglobalização, num mundo em desagregação, em que energia e segurança voltam a ser decisivos instrumentos de poder.

A desglobalização manifesta, nesta perigosa e alarmante fase belicista, uma crise do capitalismo como sistema. Este é o tempo da impotência das grandes potências.