A plataforma da imobilidade
Um pesadelo. Preferia estar a enfrentar um touro vestida de vermelho dos pés à cabeça do que andar um mês a lutar contra uma plataforma (e o seu apoio pouco esclarecedor). Se eu transcrevesse aqui a minha troca de mails com a menina dos CTT, mais ninguém viajava para Lisboa a não ser a nado.
De uma viagem feita a 31 de Janeiro no sentido Lisboa-Funchal, com direito a 160 euros de reembolso, ainda não vi um cêntimo. Dinheiro gasto em remédios para os nervos e para fazer baixar a veia da testa a latejar, algum, penso que perto de 160 euros.
Vou confessar. Não me considero infoexcluída e até me desenrasco bem com as plataformas, mas com este protótipo que durante as primeiras três semanas nem tinha links clicáveis, não me tenho dado bem.
Hoje não sei se está tudo pronto para me devolverem o dinheiro que tive de avançar por ter nascido num calhau perdido no Atlântico. Porque normalmente quando damos um enter para entregar o pedido de reembolso, ficamos 3 dias à espera de receber um mail a dar o veredicto. No meu caso, tem sido sempre o mesmo: falta corrigir bla bla bla, bla bla bla.
Passei-me. Mesmo. Escrevi polidamente um mail ao apoio, depois de tantos enganos reportados por eles, a pedir que cancelassem o pedido para eu começar um novo. Foi respondido curiosamente pelos CTT (que pensei que tinham saído de cena). Sim, de facto, enganou-se, mas não é possível cancelar um pedido de subsídio já iniciado. Tive de explicar, na 18.ª volta do correio, que eu sou dona de cancelar o que quiser numa plataforma onde acedo com o meu Cartão de Cidadão. Falei nuns amigos institucionais que tenho, tipo provedor do cliente, DECO, todos os grupos parlamentares das assembleias, com quem ia partilhar as nossas mensagens românticas. Recebi uma resposta cinco dias depois: já pode cancelar o pedido. Mas esqueceram-se de dizer que tenho de fazer muito scrool para encontrar o pedido em baixo, porque no cabeçalho, o link continua bloqueado. Como estão bloqueados os links a dizer “leia mais”.
Uma festa. Perdi um mês de vida e ainda não sei, ao dia de hoje, se a coisa se dá. Culpo os meus progenitores por me terem tido aqui e a minha tia-avó freira, que foi diretora dos Marmeleiros e insistiu com a minha mãe que eu tinha de ser madeirense. Porque é que eu não nasci no “contnente”, para poder comprar bilhetes verdadeiramente low cost em vez de subsidiar às escondidas companhias que fazem acordos estranhos entre si para eu as sustentar?!
Se a malfadada plataforma está difícil para mim, que tenho de lá enfiar o preço, o sobrecombustível, a taxa de emissão e todas as outras, a fatura duas vezes e a confirmação do bilhete, imagino para uma avozinha de 85 anos.
Com o dinheiro que me levam todos os meses em impostos, as companhias deviam financiar uns tutoriais para colocar na plataforma, ou melhorá-la para que ao inserirmos a fatura fossem distribuídos para os campos corretos os valores das taxas. Isso hoje é básico em informática.
Eu tenho direito a não ter de adiantar dinheiro ao Governo da República, porque mais ninguém o faz neste país para andar de transporte.