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Presos…

Há realidades que não pensamos, há realidades que têm a surpresa em si, há realidades que obrigam a reagir e a sentir…

Num domingo passado, não há muitos domingos, precisei de ir ao meu escritório de trabalho.

Fica num prédio, de escritórios, como é bom de ver. Parei o carro na garagem e entrei no elevador porque não me apetecia, como quase sempre, subir as escadas a pé (desço sempre, mas subir sempre custa um pouco mais). Sobe o dito, apita dlim dlom quando para e fico ali a olhar à espera de ver a porta abrir.

Não abre, queda-se quieta, sem olhar para mim de volta, sem qualquer estremeção que indique a intenção de fazer o que lhe é pedido como trabalho e serviço, que é, precisamente, abrir quando chega ao destino, logo a seguir ao já referido dlim dlom que anuncia que o destino está ali mesmo à espera.

Mas não, não abre!

Penso de mim para mim, estou preso no raio do elevador num domingo num prédio sem ninguém para ouvir o lamento do alarme que estride mais do que lamenta porque de facto não se trata de um lamento mas de um grito de ajuda de quem se sente totalmente indefeso e sem hipótese de seguir o seu destino.

Olhei para um lado, olhei para o outro, olhei para cima e, enquanto olhava, pensava no que fazer. O telemóvel não tinha rede e o alarme não seria ouvido por ninguém, como fui comprovando nos minutos seguintes.

É numa realidade destas que às vezes nos surpreende, com situações que não estamos nem um pouco à espera. Esperamos sempre que tudo corra como habitual, sem surpresas, sem sobressaltos, sem nada que tolha os movimentos que habitualmente fazemos. Mas lá vem a ocasião, aquela que faz o ladrão e, tudo escapa ao controlo da vida diária. Uma doença inesperada, um atropelo às convicções, um pagamento superior ao desejado e programado, o que se queira, e até ficar preso num elevador. São tudo momentos de decisões que se tornam difíceis ou que se fazem fáceis consoante quem tem que as tomar ou às circunstâncias que as ocasionaram: como, por exemplo, quando um menino de 9 anos tem a capacidade de, perante uma situação dramática de saúde da sua mãe, telefonar para o Serviço de Emergência, o 112 (que todos deveríamos ter debaixo da língua porque nunca se sabe), identifica-se e relata com uma clarividência adulta o episódio dramático que atormentava a mãe. E que tinha dois irmãos pequenos consigo e não queria atormentá-los.

Como não tinha rede no telemóvel, nem para chamadas de urgência, fui apoiando o dedo no botão do alarme, sabendo da quase inutilidade do gesto num prédio claramente vazio de gente, mas ainda assim com a esperança que houvesse alguém que, como eu, tivesse a necessidade de ir ao escritório naquele domingo de manhã. Ninguém ouviu, mas durante um apoio mais prolongado apercebi-me que seria possível completar uma ligação para os serviços de manutenção do elevador, que atenderam e a quem expliquei a situação, ao que responderam que iriam contactar um técnico para resolver o problema, mas que voltariam a contactar pelo mesmo meio. Sorri comigo mesmo pensando que deveria ter respondido que dali não sairia tão cedo, achava eu.

O menino de 9 anos conseguiu salvar a mãe e os irmãos de um drama que poderia ter acontecido e não aconteceu, graças a ele e ao Técnico dos serviços de emergência que teve a arte e o engenho de saber exactamente o que se passava e foi conversando com o menino até à chegada da ambulância necessária. Palmas para eles.

O tempo passava e ninguém me chamou de volta, enquanto o elevador continuava fechado e sem sinais de querer retomar o serviço. Mas, ao fim de uns razoáveis 25 minutos, apareceu uma luzinha no fundo do túnel na forma de uns 2 risquinhos no ecrã do telemóvel, e uma referência a que haveria hipóteses de somente chamadas de urgência. Tentei o 112, que atendeu e que, após a explicação do sucedido, encaminhou a chamada para os bombeiros que se prontificaram a resolver a situação já que não tinha tido nenhuma informação dos serviços técnicos do elevador.

À distância, num país assolado por uma guerra que não pediu mas que sofre, onde muitas meninas e meninos morreram sem terem tido uma hipótese de pedir uma qualquer ajuda de emergência, uma menina de 5 anos presa num carro arrasado por uma bomba ou por um rocket ou por um outro qualquer tipo de arma mortífera, sei lá, teve a coragem e o saber de ligar para o serviço de emergência que sabia haver, pedindo ajuda porque estava sozinha sem a mãe entretanto morta num outro ataque ao comboio de refugiados onde estavam inseridas. Os técnicos de serviço tudo fizeram para ajudá-la, tentando arranjar um corredor de segurança por onde pudesse passar em segurança uma ambulância e as pessoas que lhe poderiam levar socorro. A ambulância estava a uns meros 8 minutos de distância, mas para conseguir segurança para esse eventual corredor eram necessárias autorizações especiais de diversos serviços dos vários ministérios envolvidos na guerra que a menina não tinha pedido. A única coisa que a menina pedia era que a mãe a fosse buscar porque ela estava muito assustada e ferida. Ferida e assustada, mas calma, tão calma como pode estar uma menina de 5 anos, os últimos 4 debaixo de uma guerra que, como qualquer guerra, não se compadece com o sofrimento de quem não pediu para vivê-la. E a menina não pediu para vivê-la! A única coisa que pedia, sem mesmo saber dar nome às circunstâncias, era que houvesse por parte da coordenação uma luz verde para que o socorro lhe chegasse. Sem essa luz verde por parte da coordenação, o poder levar ajuda a uma criança presa dentro de um carro a 8 minutos de distância em ambulância torna-se uma demanda impossível. Tão impossível que os técnicos do serviço de emergência acompanharam a menina até morrer, oito horas depois de feito o contacto, sempre pedindo que a mãe a fosse buscar.

O menino que salvou a mãe chama-se Rodrigo.

A menina que não conseguiu socorro chamava-se Hind Rajab.

Cerca de 2 minutos depois de ter falado com o 112, a porta do elevador abriu-se espontaneamente e pude sair daquele cativeiro de cerca de meia-hora, tendo avisado logo os bombeiros que o serviço já não seria necessário.

Tive a sorte que o engenho do Rodrigo soube usar para livrar a mãe de sofrimentos maiores e que não teve a Hind Rajab que tinha o socorro a uns meros oito minutos de distância, a quem faltou a luz verde dos coordenadores dos exércitos em guerra.

O mundo tornou-se num grande absurdo sempre à espreita por aqui e por ali, quase omnipresente e sempre trágico.

Chorei de alegria pela felicidade do Rodrigo tanto quanto chorei com uma enorme tristeza pela infelicidade da Hind Rajab e de toda a sua família, exemplos do absurdo que pode ser a realidade actual!

P.S. – entretanto o elefante Trump foi solto na loja de porcelana em que se tornou o Mundo e os estilhaços sentem-se um pouco por todo o lado!

Deus nos acuda!