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Marítimo na Primeira

Nasci em 1989 e muitas das minhas memórias de infância estão associadas ao Marítimo e aos Barreiros. Também guardo as de atleta do futebol do Marítimo, passadas entre o velhinho Galinheiro, a Horácio Bento, o Maracanã e, por fim, o pelado do RG3. Essa aventura durou o mesmo que o meu jeito: pouco.

Já as aventuras no Estádio dos Barreiros duraram muito mais, vividas com o meu Tio Miguel, o meu Tio Horácio e, de vez em quando, com o pé frio do meu pai - que herdei. Quem viu os golos do Alex não esquece. Os livres do Carlos Jorge. Os três golos do Lagorio ao Benfica. O chapéu do Rui Óscar ao Vítor Baía. A festa dos apuramentos europeus. O jogo com o Leeds. As equipas treinadas por Nelo Vingada. Os golos do Joel, do Bruno e do Danny.

Depois veio a fase de muitos estudantes universitários madeirenses, que, deslocados no Continente e sentindo o que a música dos NAPA descreve melhor do que ninguém, encontram no Marítimo a sua melhor forma de ligação à terra. No meu caso, houve também o CAB, onde joguei basquetebol, com igualmente pouco jeito, mas mais relativo sucesso empenhado - mas foi sempre o Marítimo, a nossa Marcha e as cores verde-rubras da nossa camisola que serviram para nos identificarmos como orgulhosamente madeirenses, por esse mundo além. Duas vezes madeirenses.

Nesse tempo, quem foi a Setúbal vingar a goleada caseira - que sofri, só até aos 4-0, com o meu pai -, não esquece. Quem acompanhou o Marítimo europeu de Pedro Martins também não. Quem viu o afastamento do Benfica da Taça de Portugal e, na semana seguinte, jogou à bola com a camisola do Marítimo vestida em todos os campos possíveis. E quem esteve nas finais da Taça da Liga, ainda menos.

Com o início da vida profissional de muitos de nós veio outro tempo. Um tempo desportivamente menos feliz. Das goleadas na Luz, uma a seguir à outra, a seguir à outra. Das épocas sofríveis no estádio novo, onde o que antes era o sonho europeu passou a ser o objetivo difícil da manutenção. E com o inferno que veio mais tarde ninguém contava: quem participou nas eleições de 2021 não esquece - e não esquece como foi possível transformar um sopro de mudança no período mais difícil que a minha geração viveu. Carlos Pereira é o símbolo reconhecido de muito do que o Marítimo construiu, mas era preciso renovar energia - e a escolha por quem já lá tinha estado antes não se revelou, talvez por isso mesmo, a mais feliz. No final do dia, sofremos todos. Sofremos em Portimão. Sofremos no Jamor, contra o Casa Pia. Sofremos na Amadora, insultados durante mais de 90 minutos. E, por fim, sofremos nos Barreiros, no mais bonito de todos os jogos mais tristes.

Foi assim que chegámos à Liga 2. E foi depois de lá chegarmos que renovámos a esperança num futuro diferente, com nova mudança dirigente. O empate em cima da hora, em Viseu, depois de outros empates, ditou a sentença, a que se seguiu mais instabilidade diretiva, carrossel de treinadores e uma espécie de investidor que, de tão bom que era, para alguns, como eu, parecia bom demais para ser verdade - e o tempo confirmou que era mesmo.

Tudo isso faz, felizmente, parte do passado. Domingo, o Marítimo viveu, outra vez, um grande fim de semana e provou que é, pelo menos, o sexto grande de Portugal, graças à sua massa adepta, que levou cerca de 500 pessoas a Viseu, oriundas da Madeira, do Porto Santo, de todo o país e até do estrangeiro, contribuindo para que o Académico tivesse a melhor assistência de sempre da sua História na Liga 2. Não fomos lá vingar nada; fomos participar na festa do futebol. O Académico fez deste o jogo do título, o jogo decisivo, o mais importante da sua época - e isso confirma que somos mesmo o maior clube da Liga 2. No final, perdemos nos detalhes, mas isso não mudou nada: o Marítimo continua em primeiro e aquilo que se viu no final do jogo fala por si, com os adeptos a gritarem em uníssono que é para a Primeira que vamos - porque isso já não é só um sonho, já não é só um objetivo, é mesmo o que vai acontecer - mais tarde, ou mis cedo.

E vai acontecer não graças à nossa História e à nossa dimensão humana, mas porque estamos todos juntos outra vez, a dar o nosso melhor: jogadores, treinadores, funcionários e dirigentes do Marítimo; sócios, adeptos e simpatizantes, para devolvermos o nosso Clube à Primeira Liga. Quando assim é, o Marítimo torna-se um clube muito difícil de bater.

Na minha geração, muitos como eu celebrarão os 25 anos de sócio para o ano, porque nos velhinhos Barreiros era a partir dos 12 que nos cobravam entrada. O meu cartão de sócio marca como “dia inicial inteiro e limpo” o de 28 de agosto de 2002. Sei que é no relvado do Estádio do Marítimo, num jogo de Primeira Liga, talvez no sábado de 28 de agosto de 2027, que alguns de nós receberão a merecida condecoração. Agora, vamos lutar até ao fim. Até ao fim de cada jogo. Até ao fim do campeonato. No final, celebraremos juntos: até ao fim das nossas forças, até ao fim da nossa voz. Vamos a eles, Marítimo!