‘Reforma’ sem jovens
Há meses que o país assiste a um ritual exaustivo em torno da chamada reforma laboral. Já serviu para todos os fins - pressionar o Governo, marcar posição nas Presidenciais, convocar greves gerais que acabaram por ser um flop -, menos para aquilo que verdadeiramente importa, reformar o país. O Governo negoceia, volta a mastigar o mesmo e fica sempre a meio do caminho. Os parceiros sociais aparecem com a solenidade burocrática do costume. As centrais sindicais fecham-se numa resistência automática, quase instintiva. O anteprojeto arrasta-se, a proposta não chega, e a lei fica sempre por fazer. O resultado está à vista.
O mais notável, porém, nem é a lentidão. É o vazio. No centro de uma discussão que deveria pensar o futuro do trabalho em Portugal, a juventude aparece como figurante, quando aparece. Discutem-se contratos, bancos de horas, caducidades, equilíbrios corporativos. Discute-se tudo, no fundo, menos quem vai ter de viver com as regras que dali saírem. Porque é a nossa geração que vai entrar num mercado de trabalho mais duro, mais competitivo e com cada vez menos paciência para o conformismo.
Portugal gosta de repetir que tem a geração mais qualificada de sempre. Diz-se isso quase por reflexo, como quem exibe uma estatística para se tranquilizar. Forma-se uma geração inteira, alarga-se o acesso ao ensino superior, distribuem-se diplomas com generosidade, mas, quando o curso acaba, o que se abre para demasiados jovens é um funil de salários baixos, progressões curtas e expectativas que encolhem à medida que o tempo passa. O país investe na qualificação e depois vê sair os seus mais preparados para economias que sabem reconhecê-los - e, acima de tudo, aproveitá-los.
É aqui que a discussão descarrila. Persistimos em pensar o trabalho com categorias mentais de um país cansado e resignado. Há uma parte muito significativa da juventude que já não aspira à coreografia baça do emprego para cumprir horários. Já não sonha com a secretária herdada, com a repartição da rotina, com a estabilidade agora entendida como estagnação. Quer mobilidade, mérito, elasticidade, remuneração compatível com a exigência, autonomia para construir vida sem pedir licença a um aparelho corporativo ou a hierarquias que ficaram presas ao passado.
E, no entanto, a negociação da reforma laboral arrasta-se como se o tempo tivesse ficado suspenso entre a veneração da antiguidade e o culto da presença. Como se trabalhar ainda se resumisse a picar o ponto e a cumprir o ritual dos cafés. Como se a economia portuguesa pudesse continuar a tratar a ambição como um excesso e o talento como algo dispensável. Num mundo que, cada vez mais, disputa competência, criatividade, inovação capacidade de adaptação e velocidade de execução, Portugal insiste em permanecer à mesa da concertação social a discutir, com uma serenidade quase obstinada, a melhor forma de gerir o seu próprio atraso.
E depois fazemos de conta que ficamos surpreendidos com a fuga. Com a saída dos mais qualificados, com os cérebros que deixamos escapar, com a despedida silenciosa de quem estudou, se preparou e percebeu que este país lhe pede tudo na formação e lhe devolve quase nada quando chega a hora de começar a vida. É um problema de rumo, que vai muito além da economia. Um país que forma jovens para o século XXI e depois lhes oferece um mercado de trabalho preso a ideias de outro tempo está, no fundo, a escolher ficar para trás.
Uma reforma laboral digna desse nome teria de começar por aqui. Pela juventude. Pela capacidade de reter quem está preparado para criar, inovar, produzir e liderar. Pela coragem de romper com o conservadorismo do imobilismo, esse hábito confortável de quem prefere adiar o futuro a ter de o enfrentar.
Enquanto isso não acontecer, a verdade é simples e cruel. Portugal continuará a ser um país que forma jovens para os outros. Um país que investe em talento para o ver partir, que prepara o seu futuro para o exportar quase em bruto, como se não tivesse utilidade cá dentro. E, a cada saída, perdemos energia, iniciativa, capacidade de arriscar, e a irreverência que empurra sociedades para a frente. Um país que se habitua a isto, além de desperdiçar o que tem de melhor, está, passo a passo, a abdicar de si próprio.