Crescer não basta
1. A permanência de cerca de 70 doentes internados no Serviço de Urgência do Hospital Dr. Nélio Mendonça, número equivalente a quase dois serviços de Medicina Interna, expõe uma falha estrutural que vai muito além da capacidade hospitalar. Não se trata apenas de pressão assistencial, mas de um bloqueio no sistema, onde a ausência de respostas sociais impede a alta clínica de muitos doentes, sobretudo idosos.
A urgência transforma-se, assim, num espaço de internamento improvisado, sem condições adequadas e com impacto directo na qualidade dos cuidados. Este cenário revela a falta de articulação entre o sector da Saúde e a Segurança Social, incapazes de garantir respostas continuadas, lares ou apoio domiciliário eficaz.
Sem uma política integrada e uma aposta séria na protecção da terceira idade, o problema tenderá a agravar-se. Por um simples motivo: hoje vivemos mais anos do que há 20 ou 30 anos. Não basta aumentar camas hospitalares, é preciso libertá-las com soluções a jusante. Entre escusas de responsabilidade de médicos e enfermeiros o poder político continua a empurrar o problema com a barriga. Para além de estar a servir de depósito de doentes há muitos anos os corredores da Urgência correm o risco de se tornarem numa morgue impiedosa. Onde fica a dignidade dos mais vulneráveis e fragilizados?
2. O crescimento silencioso das dependências sem substância, Internet, videojogos e apostas ‘on-line’, está a ganhar uma dimensão que a Região não pode ignorar. O retrato traçado pela UCAD revela uma mudança estrutural no perfil dos comportamentos aditivos, menos visíveis, mais precoces e, por isso, mais difíceis de detectar e travar. Trata-se de um fenómeno que se instala sem sinais evidentes e que, quando se torna perceptível, já está numa fase avançada.
O carácter invisível destas dependências é, paradoxalmente, o seu maior perigo. Ao contrário do consumo de substâncias, não há marcas físicas imediatas, o que alimenta uma falsa sensação de segurança, sobretudo no espaço familiar. A ideia de que o risco está ‘lá fora’ e não no ambiente digital revela-se desajustada. A exposição precoce a ecrãs agrava o problema e compromete o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.
Os dados mais recentes confirmam que é na adolescência que se intensificam os factores de risco. A ligação entre comportamentos digitais e riscos como ‘gambling’, burlas ou ‘cyberbullying’ amplia o impacto social.
Perante este cenário, a resposta não pode passar pela proibição, mas por uma estratégia de prevenção. A literacia digital assume-se como eixo crucial, capacitando pais, professores e jovens. A família deve reassumir um papel regulador, com limites claros, supervisão e alternativas presenciais. Ao nível institucional, importa reforçar programas em contexto escolar e comunitário, garantindo uma abordagem contínua. Mais do que um problema tecnológico, estamos perante uma questão de saúde pública. Ignorá-la significará permitir que uma geração cresça exposta a riscos com consequências reais na saúde mental.
3. O debate parlamentar com o Governo Regional sobre a Economia expôs uma dualidade: crescimento robusto nos indicadores macroeconómicos e a percepção de que esse progresso não chega à maioria. O Governo sustenta a narrativa com um PIB que mais do que duplicou em dez anos, crescimento contínuo, redução da dívida e descida do desemprego. A oposição aponta inflação elevada, salários baixos e dificuldades na habitação como sinais de que a prosperidade não é partilhada.
Esta tensão ganha relevância num contexto internacional adverso, marcado pela instabilidade energética e pelo aumento do custo de vida. O Executivo reconhece os impactos, mas recusa mexer no IVA. Uma argumentação que não colhe em tempos difíceis e de folga orçamental.
A questão central reside na tradução do crescimento em bem-estar colectivo. O fundamento de que o desenvolvimento económico é condição para a justiça social é válido, mas insuficiente. Quando persistem dificuldades no quotidiano, e isso é uma realidade. Também nas opções de investimento se evidencia essa clivagem. Projectos como os campos de golfe são defendidos como estratégicos, mas vistos, por muitos, como prioridades desalinhadas. A discussão revela uma divergência sobre o modelo de desenvolvimento, entre aposta de longo prazo e resposta às necessidades imediatas.
A economia cresce, mas o desafio está em garantir que esse crescimento chega a todos, de forma equitativa e justa.