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Mudanças?

Portugal voltou a ser apanhado de surpresa — desta vez por uma tempestade que levou tudo, menos a incompetência. Perante os mortos, a destruição e os incontáveis prejuízos, a prevenção e a reação ficaram encalhadas no eterno “era imprevisível”. Dos incêndios ao apagão de abril, repete-se a farsa: culpam-se as alterações climáticas, o disfuncional SIRESP e os planos de emergência que não descolam do papel. A tutela da Administração Interna e da Proteção Civil mantém, como sempre, o seu brilho — exemplo perfeito de que o azar nunca anda sozinho, anda mal nomeado.

Uma semana depois, faltam telhas, energia e mão de obra — talvez até o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, dada a lentidão na avaliação do desastre. Mas Marcelo trouxe do Vaticano uma “bênção papal especial”, por isso, “mãos p’ro céu”, e se houver materiais, mãos à obra.

Na reta final das presidenciais, a borrasca chegou também à campanha, abalando o sossego mumificado de um candidato cuja força vem menos dos seus méritos do que da generalizada rejeição ao adversário. O país volta ao seu velho maniqueísmo: emoção dogmática sobrepondo-se à razão e ideologias dissolvidas no sentimentalismo primário, quando os interesses e privilégios do Bloco Central se vêm ameaçados.

Que os autonomistas mais devotos refreiem, por um instante, o fervor bairrista: dois anos após a épica megaoperação da PJ de janeiro de 2024, surge uma equipa de inspetores dedicada exclusivamente à corrupção madeirense. Eis o nome da Região novamente em destaque — e, enfim, num pódio onde os empilhados troféus turísticos comprados a granel já não brilham sozinhos.

Quanto aos pirómanos do eterno “contencioso das autonomias”, respirem: a República não vos retira direitos, apenas recorda que, antes de exigirem cheques de mobilidade, convém não dever um tostão ao Fisco nem à Segurança Social. Chamem-lhe condicionalidade; de Lisboa os mesmos que sobem ao altar do Chão da Lagoa preferem dizer: paga antes o que deves.

Entretanto, a administração Trump, que sempre tratou o direito internacional como papel de embrulho, embarca Maduro numa viagem só de ida para Brooklyn, enquanto “convence” Caracas a libertar madeirenses e outros presos políticos esquecidos no cárcere. É o mundo ao contrário: o ditador vai sequestrado a Nova Iorque, e os americanos fazem “diplomacia de resgate” untada com petróleo em pleno solo “chavista”.

E, enquanto uns fingem indignação com a “nova ordem internacional”, o português à frente da ONU continua exímio na arte da irrelevância. Afundou a organização num pântano burocrático — espelho global da letargia em que ele deixou há 25 anos Portugal. Agora confessa que a ONU está à beira da falência.

Mudam as estações e a crise climática, mas o socialismo, esse, continua fiel à previsibilidade.