Velhice. Estamos preparados?
A corrida do tempo, a que nos faz ansiar pelo fim de semana, por aquele feriado, pelas férias, pelas épocas festivas, têm uma consequência inevitável: quando nós viramos para trás, a distância percorrida já foi tanta que olhamos para os nossos filhos já com barba, a menopausa bate à porta e os pais… São velhos.
Não uso eufemismos, nem por ser para ti, os eufemismos são a maquilhagem das palavras e servem, apenas, para adular uma realidade que é crua e cruel.
Os nossos pais estão velhos, nós estamos na meia idade e os nossos filhos numa adolescência que não se coaduna com a falta de paciência que define a entrada na menopausa, mais ou menos precoce.
Na verdade, se a vida dos nossos filhos nos foi preparando para a fase difícil que é o auge da adolescência, nada nos prepara para o anoitecer paterno.
Os amigos e conhecidos vão desaparecendo, na nossa idade, mas sobretudo na deles. Vão se reformando, vão partindo e a cada dia que passa, vamos substituindo mais um dos nossos pais e já não conhecemos nenhum dos funcionários dos serviços onde trabalharam.
Mas, infelizmente, a velhice, sobretudo quando mais avançada, traz consigo sintomas e consequências difíceis de aceitar e lidar: os esquecimentos, as demências, as senilidades, os Alzheimers. De repente os nossos velhos estão lá, mas já não estão e se alguns se tornam em velhinhos doces, como o meu querido avôzinho, outros revelam a cronologia duma vida de fel e frustrações que tendem a verter, especialmente, naqueles com quem mais convivem.
É aqui chegados que não posso deixar passar a oportunidade para prestar um elogio público aos funcionários, mas sobretudo assistentes domiciliárias, as chamadas “senhoras da rede”, que diariamente cozinham, limpam, dão banho e aturadamente relevam acusações de desaparecimentos materiais que nunca foram, queixas recorrentes sem fundamento, situações emocionais intensas, todos os dias e no outro dia outra vez. Bem hajam.
Não estamos preparados para a velhice dos nossos, tal como nos preparam para a criação e crescimento das nossas crianças, deviam nos preparar para o que aí vem quando chegámos àquele fim de semana, àquela época festiva e concluímos, para onde foram os nossos? Os nossos velhos?