O bom, o mau e os independentes
O bom: Trabalhadores do Centro de São Bento
Ribeira Brava, terça-feira de manhã. Junto ao Centro Social e Paroquial de São Bento, um dirigente sindical debitava uma narrativa dantesca, onde o assédio moral e a falta de condições de trabalho eram as personagens centrais. Na mesma rua, em desafio à comoção sindicalista, um conjunto de trabalhadores desmentia o dirigente sindical e acusava-o de fazer da iniciativa uma angariação de sindicalizados.
Desconheço quem terá razão, mas a ironia do confronto é evidente. De um lado, a retórica inflamada, alimentada com as palavras certas para caberem num comunicado e apimentarem um título de notícia de jornal. Do outro, rostos com nome, horário e função, indisponíveis para assumir a condição de meros figurantes numa peça que diz falar deles e do seu trabalho. É uma imagem poderosa - trabalhadores a desmentirem, em público, um dirigente sindical. Por momentos, o problema dos trabalhadores deixou de convocar o sindicato e passou a ser o sindicato a precisar do problema para justificar a sua existência. Nada disto significa menorizar o papel histórico do sindicalismo, apenas nos relembra que o sindicato não é fim, é meio. Não é palco, é ferramenta. Sempre que a atividade sindical passa a ser um produto que precisa de clientes e os dirigentes sindicais passam a ser profissionais do sindicalismo, subtilmente, os trabalhadores deixam de ser representados e passam a ser mercado. O sindicalismo sério (e necessário) não é o que grita mais alto, é o que escuta primeiro e denuncia depois.
O mau: Hugo Soares
Já tudo se disse sobre o subsídio de mobilidade. O subsídio não se deveria chamar subsídio porque, na verdade, é uma obrigação do Estado. O atual regime não é perfeito, mas é infinitamente melhor do que receber 60€ por viagem realizada. O regime ideal seria que ninguém tivesse de adiantar dinheiro para viajar. O PS, hoje muito indignado, durante os 8 anos de maioria parlamentar não mexeu uma palha para o concretizar.
O PSD e o CDS, em menos de 1 ano, conseguiram dinamitar o pouco crédito político que lhes restava por terem criado o regime de mobilidade em 2015. Depois de tudo isto, há o inenarrável Hugo Soares e a sua miserável intervenção na Assembleia da República. O lamentável líder parlamentar do PSD discursou sobre mobilidade, mas, em boa verdade, quis falar sobre cidadania e sobre como, aparentemente, há uns bandalhos insulares que se entretêm a viajar de avião à custa dos impostos pagos pelos solidários, e exemplarmente cumpridores, contribuintes portugueses. Hugo Soares sabe que não é assim. Sabe que a mobilidade é um direito, não é uma benesse. Sabe que, para os portugueses das ilhas, o transporte aéreo não é luxo, é necessidade. Sabe que madeirenses e açorianos também pagam impostos. Sabe que esses impostos também financiam comboios, metros e autocarros que nunca atravessarão o Atlântico. Sabe tudo isto e, ainda assim, não resistiu à indigência política de menorizar ilhéus perante continentais, à patifaria de atirar portugueses contra portugueses. E perante o discurso ignóbil do líder parlamentar, fomos brindados com a inacreditável salva de palmas, oferecida de pé, pelos restantes deputados do PSD. Não foi concordância, foi submissão. Hugo Soares é a prova viva de que até um provinciano, nascido nos confins de Braga, com tempo suficiente nos corredores políticos de Lisboa, pode transformar-se num cubano.
Os independentes: Deputados do PSD na República
Uma semana depois da maior humilhação política infligida a madeirenses e açorianos na Assembleia da República, permanecem duas ideias. A primeira é que não fizemos tudo o que podíamos. Raras vezes a política oferece aos seus atores um guião tão óbvio como aquele que o PSD nacional ofereceu aos deputados das ilhas. Sobretudo aos eleitos pelo PSD Madeira, herdeiros de uma longa tradição política de desafio à ordem parlamentar instituída, tantas vezes pontuada com honrosos processos disciplinares por colocarem a Madeira acima da imposição partidária.
Esta herança histórica merecia mais do que a assistência resignada à intervenção de Hugo Soares e à humilhação final aplauso coletivo que se lhe seguiu. A saída do hemiciclo teria sido um gesto claro e impossível de ignorar. Teria dito, sem uma palavra, aquilo que não deixaram os deputados insulares dizer. Findo o debate, o restante caminho político também ficou por fazer. Se os deputados do PSD Madeira não podem falar quando o tema são as ilhas, se desalinham no voto e se são castigados por aclamação da própria bancada: o que fazem ali? Essa pergunta desconfortável, até hoje sem resposta, leva-nos à segunda ideia. A certeza que nada poderá ser como dantes. Com a verborreia de Hugo Soares, caiu por terra a ilusão de que a autonomia insular pode ser defendida dentro da rigidez de um grupo parlamentar nacional. Vale hoje para o PSD, valeria amanhã para qualquer partido. Estaremos sempre reféns da aritmética eleitoral, enquanto os nossos deputados forem números numa contabilidade feita longe das ilhas. Talvez seja tempo de inverter essa aritmética. Não basta que estes deputados ponderem a passagem a independentes. O passo estrutural seria outro: que os futuros deputados eleitos pelo PSD Madeira deixem de integrar, por defeito, o grupo parlamentar nacional e constituam um grupo próprio. Minoritário, é certo, mas livre e com verdadeira capacidade negocial.