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Irão versus Epstein

Há quem pense que a situação USA (Trump)/Irão está a servir de capa ao problema interno dos EUA/Trump com o assunto relacionado com o processo Epstein.

Este é um daqueles casos em que a “política da vida real” parece saída de um guião de Hollywood. A teoria da “manobra de diversão” (o famoso conceito de Wag the Dog) está a ganhar muita força nos debates actuais, especialmente pela coincidência de datas.

A tensão não surgiu do nada, mas o “pico” actual é extremamente próximo das revelações dos ficheiros de Epstein.

Em Janeiro, o Departamento de Justiça (DOJ) americano começou a libertar 3,5 milhões de páginas e milhares de vídeos relativos a Jeffrey Epstein, cumprindo a lei da transparência, assinada pelo próprio Trump, em 2025.

Em Fevereiro, no meio destas revelações — que incluem milhares de menções ao Presidente e detalhes sobre a sua amizade com Epstein — a administração Trump intensificou a ameaça militar, enviando dois grupos de porta-aviões (o USS Gerald Ford e o USS Abraham Lincoln) para o Médio Oriente.

Trump deu ao Irão um ultimato de 10 a 15 dias (que termina agora no final de Fevereiro) para aceitar um novo acordo nuclear de “zero enriquecimento” ou enfrentar consequências “muito más”.

Historicamente, crises militares tendem a unir o país em torno do líder e a empurrar escândalos domésticos para as páginas secundárias dos jornais.

A comunicação social tem destacado pormenores desconfortáveis nos novos documentos de Epstein, e uma guerra ou ataque limitado mudaria o foco do “passado pessoal” para o “papel de Comandante-Chefe”.

Esta crise com o Irão não começou ontem. Houve uma escalada contínua desde a guerra de 12 dias entre Israel e o Irão, em Junho de 2025, e o apoio de Trump aos protestos internos, no Irão, desde o início deste ano.

A administração defende que o objetivo é a “submissão estratégica” de Teerão, aproveitando a fragilidade interna do regime iraniano após meses de protestos.

Embora a crise com o Irão tenha raízes geopolíticas reais, é impossível ignorar que o “timing” agressivo serve perfeitamente para abafar o impacto político dos ficheiros de Epstein, que estão a dominar o ciclo de notícias e as discussões, antes das eleições intercalares de 2026. Para muitos analistas, pode não ser uma invenção completa, mas sim uma aceleração oportuna de um conflito que já estava em lume brando.

A situação militar no Golfo Pérsico e arredores atingiu, em Fevereiro de 2026, o seu ponto mais crítico em décadas. O que Trump chama de “Armada” é um cerco coordenado que envolve uma presença naval e aérea massiva, desenhada para dar ao Presidente a opção de um ataque fulgurante assim que o prazo do ultimato termine.

A posição militar está directamente ligada ao calendário político de Washington: a 19 de Fevereiro, Trump lançou o ultimato de 10 a 15 dias; a 2 de Março (aprox.), termina a “janela de oportunidade” para o acordo de “zero enriquecimento”; a meados de Março há a previsão de chegada do grupo USS Gerald Ford à zona de ataque directo, completando o maior dispositivo militar na região, desde a invasão do Iraque em 2003.

Embora os EUA tenham poder de fogo para destruir a infraestrutura nuclear iraniana em poucos dias, o risco de uma “conflagração regional” é altíssimo, com o Irão a poder usar mísseis balísticos contra campos de petróleo sauditas ou cidades israelitas.