Escrutínio
Costuma-se dizer que “só se deixa enganar quem quer”. Trata-se de um adágio popular que recorda a necessidade de escrutínio. Uma capacidade fundamental para qualquer sociedade, economia e democracia saudável.
Os recentes acontecimentos e as contradições em que tem caído o PSD-Madeira recordam a importância desta qualidade. Da trapalhada do subsídio de mobilidade (em dezembro o presidente do governo regional garantia a pés juntos que o Governo da República ia recuar), à questão da venda do Hospital Nélio Mendonça (cuja conclusão parece ser “em 2030 logo se verá”), passando pelas negligências graves detectadas na gestão dos cuidados continuados (que passam agora para a análise do Ministério Público), em muito se têm demonstrado as falhas de (des)governação.
Somam-se as falácias argumentativas a que PSD-Madeira constantemente recorre. A mais recente foi centrar o debate mensal no Turismo, como quem procura apontar para outro lado. Claro está que à porta ficaram as limitações aos madeirenses nos percursos pedestres, bem como a contratação de vigilantes privados para caminhos públicos (quiçá equipados com os “puxadinhos” da moda).
As constantes falhas no escrutínio levam ao despudor. Assim se percebe a admissão da prática continuado do “inimigo externo”: a culpa é jogada sempre para o país (dito na expressão “República”) e daqueles que connosco nele habitam, ainda que noutros lugares (“os continentais”). Para isto resultar há sempre mais alguém que decide entrar no jogo, fazendo conta a que agrada a 9,5 milhões, como que esquecendo que acicata 500 mil – na prática, resulta mal para todos, mais ainda porque em Braga, como em quase todo o país, há também contas a fazer face ao centralismo.
Também tivemos a rábula do funcionário (chamemos-lhe “o senhor Diamantino”), que tem supostamente mais poder que o primeiro-ministro, mas que ao mesmo tempo pode ser despedido como forma de expiação das culpas de governação. É o famoso “manga de alpaca”, que está sempre a arranjar mais problemas (para a narrativa ser completa, só falta dizer que é um “perigoso comunista” que está lá desde o tempo da revolução).
Tudo isto só resulta perante a falha no escrutínio. Cada sucesso da falácia alimenta a sua perpetuação (se resulta, repete-se).
É óbvio que a alternância democrática permite aumentar o escrutínio, diminuindo o espaço para a falácia. As pessoas sabem que existem alternativas, tendo feito uso das mesmas. Tal reforça o seu poder de avaliação a cada momento, nomeadamente, do que é melhor para si, para os seus e (sobretudo) para todos.
A vivência desta experiência alarga este sentido. Nascer e crescer num país livre dota a pessoa da capacidade de perceber as consequências das suas escolhas políticas. Compreende-se também, pela prática, que ora se ganha, ora se perde e que ambas as realidades fazem parte da democracia (o que reforça o respeito por vencedores e vencidos).
Para que o escrutínio possa acontecer é fundamental que não existam condicionamentos ou vínculos que comprometam a liberdade de análise e ação, nomeadamente, o pequeno favor de hoje, que compromete a voz no amanhã.
Por fim o papel da imprensa, para o qual recorro às lições do filme “O homem que matou Liberty Valance”. É que há sempre alguém que entre a lenda e os factos resolve imprimir a lenda. É uma prática da ficção cinematográfica, própria do faroeste, mas que resulta em danos significativos na democracia quando passa a norma do jornalismo.