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A Corrida Nuclear no Século XXI

A energia nuclear constitui um dos instrumentos estratégicos mais relevantes do atual equilíbrio geopolítico. Assume um papel decisivo em áreas como o combate às alterações climáticas, descarbonização, segurança energética, competitividade das economias industrializadas e garantia de energia estável e acessível.

A China e a Rússia cedo compreenderam o valor estratégico da energia nuclear e transformaram este setor num dos principais instrumentos da sua política externa. Ambos os países sustentam as suas empresas nacionais através de financiamento público robusto, diplomacia económica assertiva e ofertas comerciais altamente competitivas. Esta combinação de poder político, capacidade tecnológica e agilidade negocial permite-lhes avançar com rapidez e consolidar acordos em múltiplas regiões do mundo.

A Rosatom (companhia estatal da Federação Russa) tem-se revelado particularmente eficaz, ao adotar o modelo Build-Own-Operate, que lhe garante controlo total sobre a construção, a propriedade e a operação das centrais nucleares. Esta estratégia reforça a capacidade de Moscovo para moldar equilíbrios regionais durante décadas e aprofunda a dependência tecnológica e financeira dos países parceiros. Os projetos nucleares da Rússia no Egito, Bangladesh e Turquia exemplificam uma estratégia que se estende também ao Irão, à Nigéria, ao Cazaquistão e a Myanmar.

Ao mesmo tempo, torna-se cada vez mais evidente que as energias renováveis, embora indispensáveis, não são suficientes para garantir por si só uma transição energética estável e segura. Ursula von der Leyen, tem sublinhado a necessidade de reintegrar a energia nuclear no cabaz energético europeu, lembrando que a autonomia estratégica do continente depende de uma base tecnológica diversificada. Em 2025, um grupo de confederações empresariais europeias assumiu o compromisso de reforçar a indústria nuclear, reconhecendo o seu papel estruturante no futuro energético da Europa. Ainda assim, comparativamente a outras potências globais, os projetos nucleares europeus enfrentam atrasos relevantes, condicionados pelo aumento dos custos e pela complexidade regulatória.

Em suma, a energia nuclear está a afirmar-se como um dos pilares estruturantes do futuro energético global. A China e a Rússia avançam com determinação, enquanto os Estados Unidos da América e a Europa procuram recuperar terreno, ainda que a ritmos desiguais. Os países que garantirem acesso a tecnologia nuclear estarão melhor posicionados para reforçar a sua base industrial, ampliar a sua autonomia estratégica e reduzir a dependência dos hidrocarbonetos, num século em que energia e poder caminham cada vez mais lado a lado.