O Evangelho do Maior
1. [liturgia viciada de recordes que escondem pobreza, desigualdade e vazio]
Tive um pesadelo um destes dias de que preciso dar conta para exorcizá-lo. Assaltaram-me imagens em catadupa, onde tudo era maior, mais comprido, mais largo, mais alto, mais longo, mais premiado, mais, mais, mais...
O túnel mais comprido, sempre o túnel mais comprido, como se cada metro de betão fosse uma oração recitada em coro por vozes cansadas: túnel mais comprido, túnel mais comprido, e as máquinas a mastigar a montanha como ratos metálicos que não dormem, túnel mais comprido, e, afinal, o engarrafamento continua, parado, ali adiante, no mesmo lugar à entrada do túnel mais comprido.
A rotunda mais larga, a rotunda mais larga, e os carros a girarem nela como formigas tontas à volta de uma pedra de açúcar esquecida no quintal, rotunda mais larga, rotunda mais larga, o volante a rodar, os pneus a ranger, ninguém a sair dali, todos presos no círculo como se fosse a vida inteira a dar voltas em vão na rotunda mais larga.
O cais mais fundo, repetem, o cais mais fundo, como se o mar precisasse de profundidade para nos engolir, cais mais fundo, cais mais fundo, e os navios que não cabem no porto, não cabem, o silêncio dos contentores vazios, a fotografia do governante de capacete branco a sorrir para as câmaras, cais mais fundo, cais mais fundo.
O campo de futebol mais alto, o mais alto, e a relva queimada de frio, as bancadas vazias como uma boca aberta sem dentes, o vento a atravessar-se na rede da baliza, o árbitro sozinho a soprar um apito que ninguém ouve, o campo mais alto, o mais alto, e a solidão a crescer como musgo nas pedras do campo mais alto.
O teleférico mais comprido, murmuram, o mais comprido, corda suspensa sobre nada, cadeirinhas a flutuar por cima da paisagem como brinquedos de feira, teleférico mais comprido, mais comprido, a ligar lugar nenhum a lado nenhum, mas com direito a fita cortada, sorriso ensaiado, selfie de governante contra a encosta verde onde balança o teleférico mais comprido.
O partido que mais vezes ganhou, que mais vezes ganhou, mais vezes ganhou, vitórias coladas umas às outras como cromos repetidos de caderneta, mais vezes ganhou, mais vezes ganhou, e, no entanto, sempre a mesma pobreza, o mesmo salário curto, a mesma emigração, a mesma vida suspensa entre promessas que apodrecem feitas pelo partido que mais vezes ganhou.
O PIB mais alto, gritam, o PIB mais alto, como se as pessoas pudessem comê-lo ao jantar, como se pagasse rendas e enchesse frigoríficos. PIB mais alto, PIB mais alto, e os bolsos continuam vazios, os supermercados continuam caros, o dinheiro continua a não chegar. Mas lá está ele, o PIB, em letras gordas, em discursos de gala, o PIB mais alto, o mais alto.
O maior número de troféus no World Travel Awards repete-se como o padre numa missa de plástico: troféus, troféus, troféus, dourados e brilhantes como brinquedos de criança, troféus na estante da propaganda nas chegadas do aeroporto, troféus para esconder salários miseráveis, troféus enquanto os empregados da hotelaria contam moedas para pagar a renda, troféus como velas acesas em altar vazio.
A procissão mais longa, a mais longa, santos a desfilar em ombros gastos, a multidão a rezar, a medir a fé em metros, a mais longa, a mais longa, como se Deus se medisse com fita métrica, e no final da festa ficam garrafas no chão, restos de cera, beatas, o lixo a se estender pelas ruas como uma segunda procissão silenciosa e longa.
A festa que encheu mais ruas, mais ruas, mais ruas, e a ressaca do dia seguinte, os copos de plástico, o cheiro a cerveja, o vómito nos passeios, mais ruas, mais ruas, e a glória feita de números inventados e cabeças a contar multidões que já não existem na festa que enche mais ruas.
O cartaz turístico mais premiado, premiado, premiado, imagem retocada até não sobrar verdade, mar pintado de azul impossível, céu varrido de nuvens como se nunca chovesse, cartaz premiado, premiado, e por trás dele, casas a cair, salários a falhar, vidas a emigrar do cartaz turístico mais premiado.
E a voz repete na minha cabeça, sem parar, catálogo interminável: o fogo-de-artifício mais caro, a estátua mais alta, o miradouro mais fotografado, a avenida mais iluminada, o concerto com mais gente a cantar playback, a conferência com mais slides coloridos, a promessa repetida mais vezes, sempre mais, sempre mais, sempre mais, como se o mais fosse solução, como se o mais apagasse a fome, a miséria, a solidão.
E no fundo do palco, atrás das cortinas, o que resta é silêncio. Um silêncio pesado, cheio de salários curtos, de rendas impagáveis, de transportes sem destino, de jovens que se vão embora. Um silêncio que não ganha prémios, que não é recorde, que não cabe em fotografias. Um silêncio que é a realidade, nua, à espera do dia em que a música das inaugurações se cale e reste apenas o eco daquilo que sempre faltou.
E depois acordei. Ou não.
2. [do “partido dos portugueses de bem” ao clube dos farsolas]
É esta a lógica do asilo, do manicómio político, a lógica de quem aprendeu a soletrar desculpas no recreio da escola: se os outros partidos têm bandidos, também nós, os puros, os imaculados, os tais “portugueses de bem”, podemos guardá-los ao colo como se fossem santos de barro rachado. É esta a luminosa novidade, este pensamento de candeeiro barato: a virtude reduzida ao direito adquirido de ser tão sujo quanto os vizinhos.
O Chega passou a vida inteira a repetir-se, a ensaiar o refrão da decência, a representar o papel da ordem e da limpeza, a encenar o teatro da regeneração da pátria. E, no meio da gritaria contra “corruptos” e “vendidos” e “sistema podre”, quando a porcaria lhes começa a pingar do tecto, encontram a saída mágica: “os outros também têm bandidos”. É nisso que se resumem, afinal: ao álibi da taberna, ao argumento do bêbado que vomita moral sobre a toalha de plástico.
O que espanta nem é a hipocrisia, é a velocidade com que a santidade se derreteu. Nos outros, é podridão; neles, é azar. Nos outros, é crime; neles, é detalhe. Nos outros, é motivo para a forca; neles, é uma anedota mal contada. E a indignação messiânica, a moral de tribuna, transforma-se, em segundos, na desculpa engasgada do advogado de ofício: “não foi bem assim, foi só uma coisinha pequena”.
O resultado é este espectáculo grotesco: o partido que jurava salvar a pátria da lama atira-se de cabeça ao mesmo lodo. Vendiam-se como iate de luxo, reluzente, incorruptível, e não passam de jangada a desfazer-se em tábuas carunchosas. A diferença é que os outros nunca fingiram ser virgens.
A lógica, repetida até à náusea, é a mesma de quem se consola com o exemplo alheio: se o vizinho rouba, eu também posso roubar; se o colega copia, eu também copio. É a política do infantário, da criança com ranho no nariz que se julga patriota por ter aprendido duas palavras de ordem.
E sobrou isto, o riso amargo: o Chega conseguiu o prodígio de se nivelar com aquilo que mais insultava. Não se distinguiu, não se elevou, não se separou. Mergulhou. E mergulhou mais fundo ainda, porque quem sempre foi corrupto, pelo menos, não vendeu a ilusão da pureza. O Chega, não: embrulhou-se na bandeira da virtude para depois usá-la como guardanapo sujo.
Não regenerou nada. Limitou-se a engrossar, com estrondo e fanfarronice, o cortejo de cadáveres morais da política portuguesa. Mais um caixão no funeral interminável da decência pública. Mais um retracto a preto e branco na galeria dos farsantes. O partido que jurava ser a última esperança transformou-se no mais ridículo epitáfio: aqui jaz o Chega, que quis ser pureza e acabou em imundície, que prometeu redenção e trouxe apenas mais lama, que se dizia dos “portugueses de bem” e mostrou, afinal, que não passa de um clube de impostores a brincar à santidade enquanto cheira ao mesmo esgoto dos outros - talvez pior, porque o faz de batina vestida e cruz ao peito.