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Por que continuamos a celebrar a rádio no século digital

Todos os anos, a 13 de fevereiro, assinala-se o Dia Mundial da Rádio, uma iniciativa promovida pela UNESCO e oficialmente reconhecida pelas Nações Unidas. A data lembra a criação da Rádio das Nações Unidas, em 1946, e convida-nos a pensar no papel que este meio continua a desempenhar numa sociedade em constante mudança.

Se pensarmos bem, a rádio fez uma viagem extraordinária ao nosso lado. Começou com os rádios a pilhas levados para a praia ou deixados ligados na cozinha. Depois entrou nos carros e passou a acompanhar deslocações diárias com música, notícias e vozes familiares. Com a internet, mudou novamente. Hoje ouvimos rádio no telemóvel, no computador, em colunas conectadas. Muitas emissões incluem agora imagem e circulam nas redes sociais em pequenos excertos. A rádio mudou de forma, mas manteve a função: continua a ser companhia, proximidade e partilha.

Hoje, a rádio disputa atenção com plataformas digitais que oferecem música sob demanda, podcasts personalizados e recomendações automáticas. Algumas emissoras colocam os seus programas nesses ambientes para chegar a novos públicos e acompanhar hábitos de consumo fragmentados. Isso levanta perguntas importantes sobre quem controla a distribuição dos conteúdos e como os algoritmos influenciam o que ouvimos. A tecnologia amplia possibilidades, mas também transporta modelos económicos e escolhas editoriais que merecem ser discutidas.

É neste contexto que o tema escolhido este ano pela UNESCO, a relação entre rádio e inteligência artificial, ganha particular relevância. O debate centra-se em como estas ferramentas podem apoiar o trabalho jornalístico e radiofónico, ajudar a organizar informação e tornar a rádio mais acessível, sem perder valores como ética, diversidade e confiança.

Num cenário futuro, a inteligência artificial pode libertar tempo aos profissionais para ouvirem melhor as pessoas e contarem histórias com maior profundidade. Ao mesmo tempo, exige cuidado. Se a tecnologia passar a decidir sozinha o que se escuta, corre-se o risco de empobrecer a oferta e limitar a pluralidade. O desafio está em usar estas ferramentas de forma responsável, mantendo o humano no centro.

A história da rádio mostra que cada nova fase trouxe desafios e oportunidades. O que se manteve foi a sua missão essencial: informar, educar, entreter e criar comunidade. Em muitos contextos continua a ser o meio mais acessível, sobretudo em situações de emergência ou em regiões onde outros canais chegam com dificuldade.

Como professora e investigadora na área da comunicação digital e do património cultural, vejo esta celebração como um convite a pensar com calma sobre a forma como tecnologia e sociedade caminham juntas. A inovação só faz sentido quando melhora a vida das pessoas e fortalece os laços entre elas.

Do rádio a pilhas ao smartphone, do som à imagem nas redes sociais e às novas ferramentas digitais, a rádio reinventa-se para permanecer presente no quotidiano. E talvez seja isso que hoje celebramos. Um meio que muda para continuar a cumprir o mesmo papel.

Que este Dia Mundial da Rádio seja também um convite para escutarmos com mais atenção, para valorizarmos quem está do outro lado do microfone e para participarmos nesta conversa sobre o futuro dos media. A rádio vive das vozes que emite, mas também das pessoas que a acompanham. O futuro constrói-se assim, com reflexão, responsabilidade e envolvimento coletivo.