A prova democrática
Num contexto de polarização política, desigualdade crescente e descontentamento democrático, a mera defesa de procedimentos justos revela-se insuficiente. A democracia necessita de cidadãos capazes de decidir conscientemente sobre o bem comum, não apenas de indivíduos que reivindiquem direitos. Contudo, essa exigência não pode ser confundida com uniformidade ideológica nem com a pretensão de que apenas determinadas opções políticas representam a verdadeira democracia. A democracia é, antes de tudo, uma opção pessoal: uma decisão íntima de reconhecer o outro como igual em dignidade política, mesmo quando discorda de nós.
Ser democrata não significa votar como eu voto, pensar como eu penso ou defender as mesmas prioridades políticas. Significa aceitar que o pluralismo é constitutivo da vida comum. O cidadão que escolhe um caminho político diferente não é menos democrata por isso; é apenas alguém que interpreta de forma distinta o bem comum. O reconhecimento dessa diferença como legítima é precisamente o que sustenta a democracia enquanto forma de vida e não apenas como sistema eleitoral.
A recente vitória de António José Seguro constitui um sintoma dessa maturidade democrática. Independentemente das simpatias ou reservas que cada cidadão possa ter relativamente ao seu projeto político, o resultado eleitoral expressa uma escolha legítima dentro das regras do jogo democrático. Questionar a legitimidade do outro apenas porque venceu ou porque pensa de modo diferente é fragilizar o próprio fundamento da democracia. Não considero aceitável esta vitória como a expressão de “todos contra um”, pois tal leitura apenas empobrece o significado do voto democrático. Impõe-se o respeito de cada voto e compreender que esta liderança se mostrou mais capaz de mobilizar os cidadãos. Mesmo perante circunstâncias adversas, como as inundações que afetaram Coimbra, Leiria e outras regiões do País, muitos cidadãos deslocaram-se para exercer o seu direito de voto. Não há verdadeiro democrata que não se orgulhe de ver tantos cidadãos — de barco, a pé ou da forma que lhes foi possível — a participar num momento tão exigente, exercendo esse direito inalienável que é o direito a ter voz pelo voto. Há maior forma de honrar a Liberdade do que esta?
A verdadeira prova democrática não é ganhar eleições; é aceitar os resultados quando não nos favorecem. É aqui que se exerce a maior autonomia, que é sempre subsidiada pela coesão nacional. A democracia não pertence a um partido, nem a uma ideologia, nem a uma maioria circunstancial. Contudo, não pode ser instrumentalizada por aqueles que, beneficiando dela, recusam os seus princípios fundamentais, pois tal postura contradiz a própria validade que o voto lhes conferiu. A democracia pertence a todos aqueles que aceitam que o outro, mesmo quando vota diferente de mim, continua a ser plenamente democrata. Pressupõe também compreender que a vitória de um projeto não anula a legitimidade dos restantes. Implica, ainda, integrar a diferença no horizonte comum do País.
Não tenho dúvidas de que António José Seguro será um Presidente ao serviço de todos os portugueses.