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Para lá da máscara

O Carnaval é celebração, é cor, é música, é encontro. É a liberdade de vestir outra pele por um dia e de experimentar outras versões de nós próprios. Sabemos que a máscara faz parte da festa. É fantasia assumida, é criatividade partilhada, é identidade celebrada em comunidade. Talvez por isso o Carnaval seja também um bom momento para refletir sobre aquilo que permanece quando a festa acaba e a máscara cai.

Vivemos tempos exigentes. Fala-se de crescimento, de oportunidades, de modernização. E é justo reconhecer o dinamismo da nossa terra, a capacidade de atrair visitantes, de inovar, de se afirmar além-mar. Há talento, há empreendedorismo, há energia criativa. Há muito de que nos orgulharmos.

Mas o verdadeiro desenvolvimento mede-se, sobretudo, pelo impacto na vida concreta das pessoas. Mede-se na possibilidade de um jovem conseguir ficar na sua ilha sem abdicar de sonhos. Mede-se na tranquilidade de uma família que encontra habitação a preços justos. Mede-se na segurança de quem trabalha e sente que o seu esforço é valorizado. Mede-se na proteção da nossa paisagem, que não é apenas postal ilustrado, mas herança coletiva.

Se o Carnaval nos lembra que podemos ser diferentes por um dia, a política deve lembrar-nos que podemos ser melhores todos os dias.

Podemos escolher um modelo de crescimento que respeite os limites do território. Podemos apostar numa economia que não dependa apenas de ciclos sazonais. Podemos investir na prevenção social, na saúde mental, na educação, na coesão entre gerações. Podemos cuidar dos animais, da natureza e das pessoas como parte do mesmo compromisso.

Não se trata de rejeitar o progresso, mas de lhe dar profundidade. Não se trata de travar a mudança, mas de orientá-la com visão. Não se trata de retirar brilho à festa, mas de garantir que a luz não ofusca aquilo que realmente importa.

Quando o desfile termina e as ruas regressam ao seu ritmo habitual, fica a cidade real. Ficam as casas onde a renda pesa todos os meses no orçamento familiar, os bairros onde se sentem as desigualdades, as escolas onde se revelam carências, os locais de trabalho onde muitos lutam por dignidade. Fica aquilo que não cabe nas fotografias nem nos discursos festivos, fica a vida concreta das pessoas.

Talvez a maior maturidade política seja esta: saber celebrar, mas também saber cuidar. Saber projetar, mas também saber proteger. Saber crescer, mas também saber incluir.

No Carnaval, a máscara é expressão. No quotidiano, a autenticidade é força. E é essa força, serena, consistente e comprometida que pode garantir que, depois da festa, continuamos a construir futuro. Bom Carnaval!