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Crónicas

O bom, o mau e o enjeitado

À vitória presidencial de Seguro, seguiram-se as habituais tentativas de apanhar boleia do resultado positivo. A arte da vitória por contágio é antiga e comum a todas as cores partidárias. É tão legítimo que o PS festeje a eleição para Presidente da República de um antigo secretário-geral, como é aceitável que o líder do PSD nacional encontre motivos para se juntar à festa pela vitória numas eleições na Madeira. Coisa distinta, e bem mais atrevida, tentou o PS Madeira através de Paulo Cafôfo. Nas palavras do ex-presidente, agora reciclado líder parlamentar, a vitória de Seguro também foi um triunfo do PS Madeira. Talvez seja essa a única forma dos socialistas cantarem vitória numas eleições na Madeira.

O bom: António José Seguro

No final, ganhou o patinho feio do PS. Ganhou o homem que deu o primeiro passo sem o apoio do partido, a quem Santos Silva acusou de não cumprir os requisitos mínimos para ser candidato e quem Ferro Rodrigues considerou não responder aos anseios da esquerda, especialmente do PS. O resto já todos sabemos. A contragosto lá veio o apoio do PS a Seguro. Tímido na primeira volta, conveniente e entusiástico na segunda. E, de seguida, a vitória. Essa foi, principal e pessoalmente, de Seguro que, ao amealhar votos à esquerda e à direita, conseguiu mais do que duplicar a votação da primeira volta. O que se adivinhava, em Junho de 2025, como uma eleição improvável, transformar-se-ia numa noite histórica, com Seguro elevado ao estatuto de político mais votado de sempre em Portugal. Mas não foi só o antigo secretário-geral do PS a ganhar. Com ele venceu também uma ideia concreta do que deve ser o Presidente da República. Recatado, ponderado e previsível. Também foi nisso que os portugueses votaram na segunda volta: na moderação em vez do radicalismo, no diálogo em vez do confronto gratuito, na estabilidade institucional em vez da aventura de um presidente-governante. O maior conforto da vitória de Seguro é a constatação que há uma maioria alargada de portugueses que não acredita que Portugal precise de três Salazares, que não acredita que os imigrantes são a raiz dos nossos problemas e que não aceita um programa frontalmente hostil à Constituição. Só por isso, valeu a pena não votar em branco.

O mau: André Ventura

O autoproclamado líder da direita em Portugal foi atropelado pelos resultados na 2ª volta das presidenciais. Não conseguiu capitalizar os votos da direita moderada e ficou longe de reunir qualquer votação significativa ao centro. Ventura não só perdeu, como foi arrasado nas urnas. Cresceu em votos e em percentagem, é certo, mas o líder do Chega mostrou não ser capaz de alargar a sua base eleitoral, até quando era mais simples fazê-lo - numa corrida a dois, apresentada (pelo próprio) como uma escolha entre um socialista e um não-socialista, e com a falta de comparência do PSD. Tudo o resto é a habitual fuga para a frente de Ventura. Perdeu, mas apenas porque o sistema se juntou contra ele. Perdeu, mas apenas porque os portugueses acham-no mais adequado para o cargo de primeiro-ministro. Perdeu, mas ultrapassou, em percentagem de votos, o resultado da AD nas últimas legislativas. A Ventura só faltou dizer que perdeu, mas, na verdade, nunca quis ganhar. Tudo serve para esconder o óbvio. Ironicamente, o candidato presidencial contra as elites foi rejeitado pela esmagadora maioria (dois terços) dos portugueses, incluindo os de direita, os quais Ventura dizia liderar.

O enjeitado: O próximo Representante da República

Enjeitado ainda antes de ser nomeado. Se Seguro já escolheu o próximo inquilino do Palácio de São Lourenço, é assim que o escolhido se deverá sentir. Peão num tabuleiro de jogo que toda a gente concordou não ter sentido, mas que, ainda assim, continua a ter de jogar. Embora o consenso nacional em torno da extinção do cargo pareça ter arrefecido, é inegável a sua atual irrelevância política do cargo, reduzido a pombo-correio glorificado do Presidente da República e a elemento decorativo em Madeiras de Honra e cerimónias públicas afins. Se o cargo é ornamental, as principais funções que exerce - a nomeação do Governo Regional e a assinatura, veto e fiscalização de diplomas - não o serão, certamente. É para jogar nesse tabuleiro político que António José Seguro terá de escolher um peão. Suficientemente técnico para ter a legitimidade necessária para sustentar a intervenção no processo legislativo. Político quanto baste para manter a equidistância certa entre a Assembleia Legislativa, o Governo Regional e o Palácio de Belém. E profundamente conhecedor da nossa realidade para perceber que as autonomias regionais dispensam babysitters institucionais. Talvez por isso, não surpreenda que os últimos dois representantes tenham vindo da magistratura. Afinal, num cargo politicamente aberrante, nada tranquiliza mais do que alguém treinado para o recato público, habituado a decidir por escrito e a nunca parecer que escolheu um lado. A partir desse perfil, o próximo passo lógico é que seja madeirense. Não por folclore autonómico, mas porque, num cargo já estranho por natureza, o mínimo é que quem o ocupe tenha sentido, na pele, de que lado do Atlântico está.