Somos uma sociedade rica ?
Não somos os novos ricos da Europa, mas melhores (PIB) que Canárias. Devemos apreciar e ter orgulho no que fizemos e temos
Perguntaram um dia destes para onde ia a nossa riqueza. Vinda de quem veio, estranhei o seu autor fazer a pergunta e dar a perceber não saber a resposta. Se ele não sabe poucos mais poderão dar resposta convincente.
A não ser que não haja riqueza. Ou exista mas não esteja visível.
Não sei qual foi a intenção de perguntar pela nossa riqueza como se ela tenha paradeiro desconhecido. Mais a mais uma pessoa próxima de polo de poder económico tão expressivo.
Parece razoável admitir que a Madeira, enquanto região, tem um nível de desenvolvimento económico que, sem ser recorde em qualquer fórum de economia, também não é desprezível. Bem pelo contrário, os seus indicadores oficiais de PIB, desemprego, inflação, harmonia social e satisfação colectiva são absolutamente convincentes e confirmados pelas diferentes agências estatísticas nacionais e europeias.
Repetem-se anualmente com consistência e boa perspectiva futura.
De alguma forma, temos sido entretidos com uma estúpida panóplia de recordes e prémios que, sendo verdadeiros, de nada servem para aquilatar do nível de vida colectivo. Nem ajudam a viver melhor.
Cada prémio que nos é atribuído faz questionar quem beneficia dele.
Depois de já ter escrito a ideia anterior, foi a Madeira galardoada, desde 2013 pela 12ª vez, melhor destino insular da Europa. Uma região tão premiada no turismo para que precisa de artifícios protectores dos preços das viagens aéreas? Será por esta excelência que é tão difícil aterrar e chegar à Madeira? O que é bom geralmente é caro. Não é o nosso caso.
Seremos tão generosos e acolhedores para os turistas e menos bons para o povo residente? É tudo a favor dos turistas e pouca vantagem para os nativos?
Não é verdade. O Diário não precisa fazer “fact check”.
Não somos os novos ricos da Europa, mas devemos apreciar o que fizemos e ter orgulho nisso.
Há 24 anos, Canárias encabeçava as regiões ultra periféricas em PIB por habitante: tinha 91% da média europeia. A Madeira tinha 76% e os Açores 68%.
Acontece que Canárias retrocedeu para um PIB de 72% dessa média, enquanto a Madeira subiu para 88% e os Açores para 73%.
A realidade é que, agora, Canárias está atrás dos Açores e nós lideramos com ampla vantagem. Isto mostra o acerto do que andamos fazendo, pelo menos bem melhor que a concorrência insular que toda a vida perseguimos com inveja. É histórico e merece louvor.
E a nossa Zona Franca foi um fiasco, não oferecendo as mais valias que esperávamos. Ao contrário, ainda teria sido melhor.
Uma tentação poderá ser pensar que a nossa riqueza é produzida por meia dúzia de grupos empresariais que acumulam grande parte dela. É verdade que esses grupos económicos obtêm bons lucros a partir de gestão competente que todos os anos os fazem crescer. Enchem o nosso PIB regional, dão segurança de emprego e vida laboral com suficiente satisfação.
O problema é não termos mais grupos com essa dinâmica e resultados. A dimensão da economia regional não permite encaixar toda a ambição empresarial. Como disse a Zona Franca da Madeira (vulgo CINM) ficou aquém do previsível, pois deveria ter insuflado uma actividade económica ainda inexistente na Região e que resultaria de uma atractividade que ela era suposto angariar. A restante economia empresarial é de muito pequena expressão, luta pela sobrevivência apesar, de nestes últimos dez anos, haver confiança na realidade presente e expectativas futuras. Para muitas delas o actual atrapalho é a falta de mão de obra disponível, principalmente com qualificação profissional. Associada à crónica e natural falta de suficiente capitalização para alavancar projectos.
É difícil entender que uma sociedade com pleno emprego tenha carências sociais. Porque se todos têm emprego devem ser felizes. Então, como dar satisfação colectiva? Ou aumentando a generalidade dos salários ou reduzindo custos globais
É o caso de Portugal. Por arrasto também da Madeira.
O que fazer?
Aumentar a economia, tanto através de um modelo fiscal sucessor da Zona Franca, como com a dinamização de novos grupos empresariais fortes e com actividade económica rentável. A economia de sucesso precisa liderança e capital. Sem isso morremos na praia.
Fazer crescer os salários da mão de obra qualificada, com auxílio da IA e benefício de melhores índices de produtividade. A ideia peregrina de nivelar salários pelo número de cabeças, salário mínimo, e não pelo mérito do desempenho não é aceitável numa economia feroz e competitiva como a europeia.
Vejo mais desânimo nos que sentem os detrás se aproximando que entusiasmo produtivo nos que mais se têm aproximado da média geral.
Tudo o que é artificial não presta.
Em segundo lugar, talvez até seja o primeiro, temos a despesa com a administração pública. Não são só as despesas de funcionamento dos muitos serviços do governo e autarquias como ainda os investimentos públicos. Mas, em particular, temos mais um nível de despesa administrativa, inexistente no resto do país, que é a gestão da autonomia. Esta obrigação constitucional, autonomia política e administrativa, devia ser compensada pelo Estado, como nível intermédio e obrigatório de despesa pública. Se é uma obrigação constitucional não nos cabe suportar na íntegra.
Outro sorvedouro de dinheiro é o pagamento anual de juros da dívida pública regional herdada por este governo regional. Os quase cinco mil milhões de dívida fazem ter de gastar centenas de milhões de euros em juros, serviço da dívida. Dinheiro que podia ajudar a resolver muita carência.
A insularidade, e os custos extraordinários associados, são um adicional no custo de vida dos madeirenses. Para além do custo de vida básico igual ao continental, temos de aumentar os custos de transporte e comercialização associados à insularidade.
Ou seja, temos um custo de vida mais caro a que acresce a inflação anual. A mesma inflação que no Continente faz aumentar mais os preços na Região.
A anormal recente evolução dos preços dos combustíveis tem contribuído para uma complicada despesa inesperada.
O custo de vida na Madeira e Porto Santo precisa atenção suplementar. Esta onda de aumento de preços deve ter preocupação política bem como proximidade do governo na abordagem comercial anterior a esta contaminação.
Continuar a diminuir a carga fiscal, prática recorrente do governo regional. Alivia o encargo familiar.
Um exemplo evidente de novo peso financeiro sobre as famílias residentes são as viagens aéreas e o adiantamento financeiro que é preciso realizar. Nestes últimos anos, uma viagem ao Continente, muitas de cariz obrigatório e outras de lazer, obrigam a um esforço financeiro que mais nenhum português tem. Não pagamos, mas adiantamos. Para além de haver que pagar hotel e demais despesas de estadia. Esta mobilidade, financeiramente inaceitável, é da responsabilidade do governo de Lisboa ainda que tenhamos culpas. No Continente passeiam-se de comboio com passe de vinte euros. Até os táxis são subsidiados.
São no sucesso destes palpites que se precisam prémios. E que sejam do melhor em Portugal, na Europa e no Mundo.