Onde pára esse PIB maravilhoso?
Pedro Calado acordou, e imagino esse despertar como o de alguém que abre os tapasóis de um gabinete e encontra, onde julgava haver uma paisagem, pessoas, pessoas com contas dentro de envelopes, pessoas a demorar a mão sobre uma embalagem no supermercado, a devolvê-la à prateleira com o cuidado envergonhado de quem devolve uma coisa que chegou a pensar sua. Há mais de três anos que pergunto onde está esse PIB maravilhoso, a que mesas chega o crescimento estratosférico, que recibos paga o desenvolvimento deslumbrante, para que servem tantas empresas fantásticas, tanta tecnologia, tanta excelência, se, ao fim do mês, o dinheiro conhece tão mal o caminho de casa. Calado pergunta para onde vai a riqueza, e a pergunta merece resposta, merece que se interrompa a cerimónia, que se baixe o microfone, que se ouça o ruído de uma moeda a cair no fundo de uma carteira. O espanto do antigo governante merece outra conversa.
Convém trazer para essa conversa a cadeira em que Pedro Calado se sentou, vice-presidente do Governo Regional entre 2017 e 2021, com responsabilidades em áreas que depois transitaram para a Secretaria Regional das Finanças, e deixá-la diante dele enquanto pergunta, porque há perguntas que ganham uma curiosa inocência quando se afasta o móvel onde se tomaram decisões. Basta voltar às pastas sobre a secretária, às datas dos despachos, aos mapas com números que alguém explicou a alguém, e usar a memória, essa faculdade tão incómoda para quem descobriu as vantagens públicas da perplexidade. Que decisões ajudou a tomar, quem esperava beneficiar, como avaliou os resultados, quando percebeu a distância entre as contas e a vida? Pode responder pela parte que lhe pertence, com a experiência de quem esteve lá. A carreira de cidadão surpreendido começa a apertar em alguém com um currículo semelhante. Uma passagem pelo poder devia deixar alguma coisa mais útil do que desembaraço diante de um microfone. Sim, porque Calado é responsável. Pode mudar de ideias, mas essa mudança não lhe apaga as decisões nem o retira da lista de responsáveis por este modelo. Se agora percebe o que antes não via, deve dizê-lo com clareza, reconhecer que estava errado e pedir desculpa a quem vive com as consequências. A mudança de opinião merece ser ouvida, mas a memória também.
Venham depois os habitantes do prodígio, os 53,3 mil residentes que, em 2025, permaneciam em risco de pobreza ou exclusão social, 20,5% da população, mesmo após uma redução de 5600 pessoas face ao ano anterior; venham os 41,8% sem capacidade para suportar uma despesa inesperada de 632 euros sem empréstimo, os 23,5% em habitações sobrelotadas, os 11,3% em privação severa das condições de habitação. Imagino uma cozinha onde se abre a carta da reparação, se olha para o frigorífico, se dobra a carta de novo, como se dobrar o papel pudesse diminuir o preço, e alguém pergunta, da outra divisão, se está tudo bem; está, responde-se, talvez, porque também se tenta poupar a preocupação aos outros. Levem a essa cozinha a brochura do sucesso regional, experimentem pousá-la entre a conta e o prato. Terá certamente uma utilidade prática. Se houver água a cair do tecto, sempre se pode começar por ali. A propaganda, convenientemente dobrada, talvez absorva alguma coisa.
Nos salários, a grandiosidade cabe em números pequenos: em Outubro de 2024, 27,4% dos trabalhadores por conta de outrem a tempo recebiam uma remuneração base exactamente igual ao salário mínimo de então, 850 euros, e, somados os escalões publicados, 64,5% ficavam abaixo de mil euros de base. Imagino uma cerimónia: as cadeiras direitas, os copos de água, o orador a compor os papéis antes de pronunciar a palavra excelência, e, atrás dele, estes números projectados na parede, teimosos, legíveis, a estragarem a harmonia da sala. Deixem-nos ficar durante as distinções. Deixem que acompanhem os agradecimentos. Talvez alguém explique como se converte a excelência num ordenado capaz de sustentar uma vida, porque o trabalhador pode já ter aprendido, ao longo de muitos anos, a voltar cansado a casa, a adiar uma compra, a encontrar uma maneira de chegar ao dia seguinte. Seria uma delicadeza mostrar-lhe onde começa a sua parte no triunfo.
Depois a casa, essa extravagância de quem nasceu numa ilha e gostaria de continuar a caber nela, com uma chave no bolso e um lugar para pousar o corpo: no segundo trimestre de 2026, a renda mediana por metro quadrado dos novos contratos na Madeira subiu 17,4% em termos homólogos, para 12,78 euros, e no Funchal chegou a 14,49 euros. Multipliquem, numa conta meramente ilustrativa, o valor do Funchal por 70 metros quadrados: 1014,30 euros mensais, face a um salário mínimo regional de 980 euros brutos em 2026. Pense o leitor no lápis a parar sobre o papel, a pessoa a repetir a operação, talvez o erro esteja aqui, talvez tenha carregado numa tecla errada, e a conta a devolver-lhe o mesmo resultado com a paciência cruel das contas. Faltam os descontos, a comida, a água, a luz, os transportes. Um planeador particularmente zeloso poderá descobrir, no estômago, uma despesa dispensável. Depois explica a reforma num seminário, ao almoço, entre duas garfadas, com a serenidade de quem sabe administrar as privações alheias.
No campo, comecemos pelas mãos antes de chegar ao anúncio, as unhas onde a terra demora, o joelho a procurar apoio no declive, e só depois o comunicado: em Dezembro de 2025, o Governo anunciou um adiantamento de cerca de 6,1 milhões de euros a 12 046 agricultores, correspondente a 85% dos apoios aprovados no âmbito das intervenções do PEPAC em causa; o próprio secretário referiu que muitos encaravam a transferência como o seu tradicional “subsídio de Natal”. A meu ver, esta linguagem tem o peso antigo do paternalismo, o governante a anunciar, o agricultor à espera, o dinheiro público a dar ao anunciante o conforto de parecer generoso. A tentação de encenar os apoios como esmolas de uma Secretaria merece que se lhe ponha diante o trabalho de quem produz, os seus direitos, a sua dignidade. Quanto lhe fica do preço final? Como melhora a comercialização? Que futuro se oferece a quem queira cultivar? O anúncio termina, o homem imaginado volta à terra, e as perguntas podem envelhecer no socalco sem incomodar uma única fotografia.
Acrescentemos a ajuda alimentar: em 2025, o Banco Alimentar da Madeira distribuiu 936,2 toneladas de alimentos através de 52 instituições parceiras, uma rede de trabalho e generosidade a que se deve respeito. Pense-se no peso de um saco no braço de alguém, no pequeno balanço do saco ao subir uma escada, na tentativa de chegar a casa antes que seja preciso explicar o cansaço. Que prosperidade se constrói para quem continua a precisar desta ajuda? A pergunta pode entrar no gabinete sem marcar audiência, sentar-se diante de quem conta dormidas, passageiros, investimentos, e pedir que conte também o dinheiro que sobra depois da renda, as famílias capazes de suportar um imprevisto, a possibilidade concreta de viver com os salários pagos. O responsável político que consiga atravessar estas contas terá uma boa oportunidade para demonstrar competência. Talvez até pudesse dispensar o assessor de comunicação. Haveria, finalmente, alguma coisa para explicar que coubesse inteira na vida de quem o escuta.
O PIB mede a produção de bens e serviços, e a distribuição dos rendimentos, o poder de compra dos salários e o acesso à habitação exigem outras contas, uma distinção elementar que devia acompanhar o primeiro dia de qualquer pessoa com ambições de governar, antes do gabinete, antes da fotografia, antes da descoberta de que a palavra crescimento, repetida com solenidade, ajuda a preencher uma tarde. Uma economia pode crescer enquanto parte da população continua a viver com enorme dificuldade, e é preciso acompanhar os ganhos, perceber a quem chegam, quanto absorvem as despesas essenciais e que futuro fica para os filhos. Uma empresa deve ser avaliada pelo valor que cria, pelo emprego que oferece, pelos salários que paga e pelo contributo que deixa na Região. Contá-las produz um inventário, e há-de ser preciso algum talento para transformar um inventário numa certidão de felicidade colectiva. Para quem ganha pouco, a tal economia de primeira pode soar como convite para jantar, um envelope bonito que se abre devagar, na esperança de que, desta vez, não chegue uma nota a pedir que se traga a comida.
Pedro Calado fez uma pergunta útil, e agora pode responder com o que sabe, com o que decidiu, com a parte da experiência que lhe pertence, deixando à porta o espanto de quem acaba de chegar. Eu continuarei a perguntar onde pára esse PIB maravilhoso, porque volto à cozinha imaginada, ao lápis suspenso sobre a conta, à embalagem devolvida à prateleira, ao homem a voltar ao poio, e quero que o crescimento consiga entrar ali, pagar a renda, encher o frigorífico, deixar dinheiro para o resto do mês. Quem governa tem de responder por esta distância entre o êxito anunciado e a dificuldade vivida, tem de aguentar a pergunta depois de se desligar o microfone, quando as cadeiras se arrumam e cada um regressa ao que tem. A Madeira já ouviu a apresentação do milagre. Pode dispensar a próxima sessão de aplausos. Fica uma pessoa à mesa, nessa casa, a passar o dedo pelas despesas, a procurar outra vez o erro, e o erro, senhor doutor, continua a dar a soma certa.