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O custo de não prevenir

No passado dia 10 de outubro, assinalou-se o Dia Mundial da Saúde Mental. Mais do que uma efeméride, esta data deve servir para encarar problemáticas que atravessam gerações e contextos sociais. Os dados divulgados pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) relatam-nos que, em Portugal, as perdas de produtividade associadas a problemas de saúde psicológica mais do que quadruplicaram desde 2020. Por detrás destes números estão pessoas, famílias e organizações. E, sobretudo, está uma questão que não podemos continuar a adiar: quanto nos custa não prevenir?

Segundo a OPP, as perdas relacionadas com esta menor produtividade poderão representar mais de 13 mil milhões de euros anuais. Significa isto que uma redução de “apenas” 30% permitiria resgatar cerca de 4 mil milhões de euros por ano. A saúde mental não pode ser tida como um luxo ou um benefício acessório. É nuclear para o funcionamento benigno das organizações e para a sustentabilidade da economia. Quando o sofrimento psicológico é tratado como consequência inevitável do trabalho, normalizamos riscos que sabemos poder prevenir. A produtividade não deve ser medida apenas pelo que se produz, mas também pelas condições em que se trabalha.

Promover ambientes laborais psicologicamente seguros, saber reconhecer sinais precoces de sofrimento ou agilizar o acesso a apoio especializado são medidas com comprovados impactos humanos e económicos que devemos relevar. Sob pena de, enquanto sociedade, nos conformarmos com a ideia de apenas reagir quando alguém chega ao seu limite. A evidência científica sustenta a importância de estratégias preventivas e de promoção do bem-estar: com os trabalhadores, as lideranças e os serviços de saúde em uníssono. Investir em saúde mental não elimina todos os problemas, mas permite construir fatores protetores e reduzir fatores de risco.

Esta lógica deve começar muito antes da entrada no mercado de trabalho. Nas escolas, a exigência académica e a pressão social encaminham muitas vezes os mais novos para comportamentos e hábitos nefastos ao seu desenvolvimento. O relatório nacional “Saúde Psicológica e Bem-Estar 2024” indica que os alunos do 12.º ano dormem, em média, menos de sete horas por noite durante a semana. O Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD), em estudo divulgado no ano passado, revela que mais de metade dos jovens com 18 anos utiliza as redes sociais durante quatro ou mais horas diárias. A mesma investigação aponta também que dois em cada dez destes jovens fazem apostas online, conhecendo-se hoje o crescimento desmesurado que as plataformas ilegais de jogo têm tido em Portugal. Estes são exemplos de tendências atuais dos nossos jovens para hábitos que afetam o seu bem-estar, a sua capacidade de autorregulação e, por consequência, a sua qualidade de vida.

Falar de saúde mental implica olhar para além dos diagnósticos e das crises. Que consequências terão a privação de sono, a dependência das redes sociais e os comportamentos de jogo patológico? Ou até mesmo a alimentação desajustada, o sedentarismo e a falta de exercício físico? E que papel cabe às famílias, às escolas, às plataformas digitais e às políticas públicas? Não defendo a tese de transformar comportamentos em rótulos, mas também não podemos desvalorizar sinais de alerta óbvios e evidentes. A prevenção exige literacia, proximidade e pragmatismo. Seja no trabalho ou na escola, investir na saúde mental é proteger as pessoas antes de se contabilizarem perdas. É começar o jogo com um golo de vantagem. Quando falamos de produtividade, não podemos perder o horizonte de que o bem-estar psicológico é também um fenómeno educativo, económico e social. É uma escolha de responsabilidade coletiva e não uma despesa que possamos continuar a adiar.