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Avô, o que é cultura?

Primeiro de Janeiro (como soe dizer-se por aqui) de 2026, fomos ao circo.

Àquele que ano após ano nos visita e convida, como se fosse de casa e quisesse fazer parte da Festa que nos reúne na amizade e no amor, quase como um ritual que não sendo obrigatório é, diria, uma obrigação familiar responder positivamente ao convite que os artistas tão amavelmente nos endereçam, merecedores que são do nosso carinho e admiração.

O circo, por muitos, eu incluído, considerado o “maior espectáculo do mundo” traz consigo uma atracção muito especial no nosso imaginário, com todos os malabaristas e mágicos, trapezistas e contorcionistas, cantores e palhaços, e muitos mais, autores de façanhas que julgamos impossíveis de executar, autores de grandes feitos que perduram na memória e na imaginação desde as crianças que fomos até aos adultos que somos, desde que, quando levados pelos nossos pais fantasiámos um mundo de viagens por paragens desconhecidas até levarmos nessas viagens tornadas possíveis os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos que mostram o mesmo brilhos nos olhares que nós mostrávamos aos nossos pais e avós quando pela mão nos aventuravam em mundos de fantasia fabricados pelos autores e artistas encantadores da nossa imaginação, como quaisquer outros agentes de cultura e de entretenimento que enriquecem o nosso conhecimento.

“Avô, o que é cultura?”, perguntou o meu neto de 7 anos quando, há algumas semanas, saiu da escola.

Dei comigo a cogitar “pergunta difícil, esta”, mas não podia deixar que o tempo passasse

(e por falar em cultura ou na falta dela, há quem meta um hífen a meio e escreva passa-se, deixando-nos passados…)

na esperança que algo o distraísse, e que a vontade de complementar o que tinha aprendido na escola esvaísse e fizesse esquecer (idem quanto a eventuais hífens) a questão que me tinha colocado!

“Cultura é conhecimento”, comecei por dizer, “tudo o que estás a aprender na escola, tudo o que a tua professora te ensina, tudo o que lês, ouves, vês e aprecias, tudo o que aprendes com a tua Mamã e o teu Papá, com a Avó, com o Avô, tudo isso é cultura”.

No resto do caminho, enquanto nos dirigíamos para um destino que já não me lembro qual era

(o esquecimento faz parte do processo cultural porque nos dá a possibilidade de reaprender o que já sabíamos, talvez até com uma perspetctiva diferente da que tínhamos anteriormente),

fui falando com as abotoadeiras que mantêm púdica a vista dos pelos peitorais, abotoadeiras sempre boas conselheiras porque ouvem sem replicar grandemente a não ser quando o suspiro é muito grande e não conseguem conter o tecido que, qual cortina mal fechada, deixa entrever o interior que é pretendido resguardar.

Se tenho para mim que se cultura é conhecimento, é então tudo o que vamos aprendendo e apreendendo ao longo da vida e que nos deixa, necessariamente, mais cultos a cada dia que passa.

Ninguém pode ou deve ter a veleidade de que só porque leu ou estudou os filósofos clássicos gregos ou romanos, chineses, coreanos ou russos, ou só porque consegue identificar umas peças musicais ou umas pinturas de autores famosos, é mais culto do que outros que não tiveram essa experiência, seja por que razão fôr, e há muitas!

Ter um conhecimento empírico pode ser tão importante como ter conhecimento científico ou filosófico, com a diferença que o primeiro vem da experiência da vida, da experiência vivida e o segundo vem da leitura ou da interpretação da arte, já que a arte faz parte da cultura mas não será cultura em si se não fôr acompanhada do conhecimento que levou o escritor ou o artista a ter esta ou aquela opinião, esta ou aquela interpretação.

O antropólogo Sir Edward Burnett Tylor definiu cultura como “um complexo que inclui o conhecimento, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade”, ou seja é um conjunto de elementos que moldam a vida social e individual.

Cultura, meu neto, é tudo o que possas aprender, na vida e com a vida.

É, ou deveria ser, tão simples quanto isto!

2026 acabou de chegar e, ainda fresquinho, sem vícios ou viés a perturbar o andamento que o torne de alguma forma memoriável permitindo que guardemos todas as sensações e emoções que, agradáveis ou talvez menos agradáveis, fazem com que no fim do ano se possam fazer os balanços inevitáveis de fim de ciclo e se perspectivem outros para um outro ciclo que se iniciará quando a inexorável passagem do tempo assim ditar, ficando em memória tudo o que fomos capazes de apreender com as nossas vivências diárias.

E tudo isto cabe numa simples visita ao circo, onde cerca de 20 artistas compõem quadros que nos podem levar aonde a imaginação quiser!

Um grande Bem hajam e um enorme obrigado a todos os artistas circenses que com tão pouco conseguem proporcionar bons momentos de satisfação, prazer e… cultura!

Um bom Ano de 2026 para todos!

P.S. – o ano fresquinho e sem viés que escrevi acima foi já enviesado pela “acção musculada” dos americanos na Venezuela. É o que temos!