Antes das quatro
Antes das quatro, antes do encontro, é nos rituais que o amor acontece
“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.” Quem conhece a história do Principezinho, de Saint-Exupéry, sabe exatamente do que falo.
Esta é daquelas citações que não envelhecem, amadurecem. Dita pela raposa, não fala apenas de encontros marcados, fala da arte, tantas vezes esquecida, de preparar o coração. Fala de um amor que começa antes de começar, que se constrói no intervalo invisível entre a expectativa e a presença.
No Principezinho, cativar nunca foi seduzir à pressa. Foi criar laços com tempo, com ritmo, com intenção. E foi, sobretudo, criar rituais.
A raposa explica que os rituais tornam um dia diferente dos outros, uma hora distinta das restantes. Hoje sabemos dar outro nome a isso, previsibilidade emocional.
Quando algo se repete com sentido, o cérebro reconhece o padrão e envia ao sistema nervoso uma mensagem essencial: estás em segurança, podes relaxar. É por isso que os rituais simples sustentam o amor mais do que os gestos grandiosos. O amor precisa dessa segurança para crescer. Sem ela, o corpo vive em alerta, o vínculo transforma-se em ansiedade, a relação vive de sobressaltos.
Com rituais, o sentimento é nutrido, o afeto assenta e enraiza.
Um bom-dia dito sempre da mesma forma. Um café partilhado em silêncio antes do mundo começar. Uma mensagem breve, mas constante, a meio do dia, não para controlar, mas para lembrar: estou aqui, estamos juntos. Um beijo acompanhado de um abraço à saída de casa. Um telefonema à mesma hora. Um jantar semanal protegido de agendas e distrações. Cinco minutos de conversa verdadeira antes de dormir, mesmo nos dias desafiantes. Uma pergunta fixa, olhos nos olhos, tão simples e tão poderosa: o que precisas de mim agora?
Nada disto é espetacular. E é exatamente por isso que funciona. Porque os rituais não servem apenas quando o amor está fácil. Servem quando estamos cansados, distraídos, com mais difícil em acedermos aos nossos recursos e por isso, menos disponíveis. Servem para nos lembrar de amar quando o entusiasmo não lidera. São eles que sustentam o vínculo nos dias neutros, nos dias difíceis, quando a emoção falha, mas o compromisso permanece. O corpo aprende que pode baixar a guarda. O vínculo deixa de viver em alerta. O amor passa do entusiasmo ao enraizamento.
A rosa completa a lição. Não é única por ser perfeita, mas porque foi cuidada. Porque alguém investiu tempo nela. Regou-a mesmo quando não florescia. Protegeu-a do vento. Escutou-lhe as contradições.
O amor não se distingue pelo brilho inicial, mas pela dedicação silenciosa que permanece quando o encanto já não faz barulho. Somos responsáveis por aquilo que cativamos. Não como fardo, mas como escolha adulta.
Criar laços é assumir influência emocional. É compreender que a ausência incoerente desorganiza, que a presença previsível tranquiliza. É perceber que amar não é apenas sentir, é regular, com cuidado, o espaço emocional entre dois sistemas nervosos. E isto é válido para todas as relações que escolhemos manter. As amorosas, as familiares, as de amizade, as que exigem presença e cuidado ao longo do tempo.
Onde há vínculo, há responsabilidade emocional. Num tempo que confunde urgência com intensidade, escolher rituais é quase um gesto revolucionário. Neste ano novo, e com o tema do espetáculo pirotécnico a ser “Love”, a explodir nos céus do Funchal para o mundo, talvez o amor não precise de reinvenção, mas de continuidade. Menos promessas entusiasmadas, mais rituais simples. Menos sobressaltos, mais calma. Amar pode ser isto: chegar à mesma hora, manter a palavra, repetir gestos que dizem ao outro, e ao corpo do outro, que está em casa. Nutrir o amor é aceitar que alguém comece a ser feliz antes da nossa chegada. É saber que, algures, o nosso nome organiza o tempo de outra pessoa. E honrar isso com presença, cuidado e responsabilidade. Porque o amor, como a raposa sabia muito antes de a neurociência lhe dar razão, não acontece, cultiva-se. E quem cria rituais, cria segurança. Quem cria segurança, cria laços e relações conscientes, duradouras e com significado. Cria leveza.