A capacidade de perder sem colapsar
Vivemos numa cultura que frequentemente associa valor pessoal a sucesso e erro a falha individual. Espera-se progresso linear, confiança constante e resultados rápidos, e a perda, insucesso ou rejeição são vividos como sinal de incompetência, fraqueza ou falha de caráter, algo a corrigir ou a esconder. Porém, quando se analisam trajetórias de alto desempenho no desporto, na criatividade ou na ciência, emerge um padrão robusto: os melhores do mundo perdem muito, mas não se deixam definir por isso, nem organizam a sua identidade em torno da última derrota. A diferença está na forma como se organizam psicologicamente para continuar.
Roger Federer revelou recentemente um dado desconcertante: ao longo de toda a carreira, ganhou apenas cerca de 54% dos pontos que disputou. Ainda assim, dominou o ténis durante anos, pois a sua força não esteve em ganhar sempre, mas em não transformar um ponto falhado numa crise interna ou numa narrativa de incapacidade pessoal. O erro ficava circunscrito ao ponto anterior, não se alastrando à confiança nem à tomada de decisão seguinte. “Em qualquer jogo que joguemos na vida”, disse Federer, “iremos perder - um ponto, uma partida, uma temporada, um emprego, uma relação. Os melhores do mundo não são os melhores porque ganham todos os pontos, e sim porque eles sabem que vão perder repetidamente, e aprenderam a tornarem-se mestres em superar momentos difíceis”.
Este dado é coerente com o que a psicologia do desporto tem vindo a demonstrar. Revisões sistemáticas e meta-análises mostram que atletas com melhor desempenho não são os que evitam falhar, mas os que mantêm a autorregulação emocional quando falham e a capacidade de manter o comportamento orientado para a tarefa apesar do erro, frustração ou incerteza. Metas centradas no processo (a insistência consistente no que se faz e como se faz) produzem melhores resultados do que metas focadas exclusivamente no resultado (acertar, vencer, ser reconhecido).
O comediante Jerry Seinfeld escreve piadas todos os dias há quase cinquenta anos e admite que cerca de 98% do que cria não funciona. O público vê apenas os momentos em que resulta, mas o processo é feito de tentativas falhadas, silêncios desconfortáveis e pequenas derrotas diárias. Seinfeld não confia que vai resultar, confia que consegue lidar quando não resulta. Essa tolerância ao desconforto é uma competência psicológica treinada ao longo do tempo e raramente visível, mas absolutamente central.
Também Thomas Edison falhou milhares de vezes antes de conseguir uma lâmpada funcional. Quando questionado sobre esses fracassos, respondeu que não tinha falhado, apenas descoberto inúmeras formas de não fazer uma lâmpada. Esta formulação não é ingenuidade otimista nem frase motivacional vazia: é uma estratégia psicológica sofisticada, tratando o erro como informação útil, não como prova de inadequação pessoal ou barreira definitiva.
Pessoas altamente competentes não são as que sentem menos frustração, vergonha ou medo, mas as que conseguem regular esses estados sem perder direção nem continuidade. Não confundem desempenho com identidade, não entram facilmente em ruminação e conseguem manter-se em tarefa mesmo quando a experiência interna é desagradável. É neste ponto que muitos saem do jogo e que alguns poucos ficam.
Na prática clínica este ponto é central. Muitas pessoas não avançam não por falta de capacidade, mas por intolerância ao fracasso, à incerteza ou à avaliação externa. Evitam tentar, adiam decisões ou desistem cedo para não contactar com emoções difíceis. O problema raramente é o erro/situação em si, mas o significado psicológico inflexível que lhe é atribuído.
Desenvolver uma estrutura mental resiliente implica flexibilidade psicológica, distinguindo identidade de desempenho, normalizar perdas e desconforto como parte do crescimento. Sobretudo, aprender não a evitar, mas permanecer quando falhar dói, com o compromisso de continuar a caminhar em direção ao que importa.