Acordo UE–Mercosul: barreiras, pressões e oportunidades
Em maio de 2025 escrevi no Substack sobre a importância e a dificuldade de um acordo entre a UE e os países integrantes do Mercosul, cujas negociações decorriam há duas décadas, mas pareciam encaminhar-se para um fim vantajoso para ambas as partes.
O propósito do acordo é eliminar cerca de 90% das barreiras aduaneiras às trocas entre os países de cada bloco. O acordo visa eliminar 90% das barreiras aduaneiras, seguindo o princípio de que menos barreiras promovem o comércio livre, beneficiando cada bloco.
No entanto, há quem beneficie destas barreiras e, para tornar a situação mais complexa, estes acordos são mais abrangentes do que definir que taxas se aplicam a que produtos.
Por estes motivos, e por envolverem países distintos com as suas próprias motivações e receios, estes acordos nunca são fáceis de concretizar podendo surgir, ou desaparecer, barreiras à sua realização, consoante a vontade política das partes.
Após cerca de vinte anos de negociações marcadas por intermitências, os países assinaram um acordo político que teria, posteriormente, de ser transposto e ratificado pela maioria dos países de cada bloco.
No entanto, após o acordo inicial, começaram a surgir obstáculos à sua realização. Emmanuel Macron levantou diversas questões ambientais, desde os padrões ambientais da produção de bens na região, até à desflorestação da Amazónia.
Para observadores externos, a preocupação repentina do presidente francês com a saúde ambiental da Amazónia poderá resultar da pressão exercida pelos agricultores franceses que passariam a competir com o continente sul-americano. De forma semelhante, diversos sindicatos europeus levantaram questões quanto ao regime laboral dos países do Mercosul, questionando se a concorrência era justa.
Estes temas foram vistos pelos líderes sul-americanos como hipocrisia e preocupação seletiva dos europeus. O principal risco destes atrasos seria o empurrar gradual dos países do Mercosul para outras potências nacionais.
No entanto, com o passar do tempo, tornou-se mais vantajoso para a UE concretizar este acordo, abrindo acesso a mercados num contexto em que os EUA se fecham e a China continua a expandir o seu projeto da nova rota da seda.
Com este aumento dos incentivos, assistiu-se também a uma alteração das prioridades. Subitamente, os problemas ambientais e laborais desapareceram e os agricultores foram apaziguados com quotas à importação nos principais produtos agroalimentares concorrentes.
Com este acordo, os países do Mercosul podem reduzir, nalguns segmentos, a sua dependência da China, enquanto a UE aumenta os seus consumidores e diminui, parcialmente, a incerteza das cadeias logísticas globais. É essencial que a UE não perca o seu rumo e continue a abrir os seus mercados a novos parceiros sem precisar do apadrinhamento de outras entidades nacionais ou supranacionais.