Os flagelos do costume
Todos os anos, Portugal é agraciado pelos mesmos fenómenos cíclicos, quase tão fiéis quanto o calendário litúrgico: a festa do campeão nacional de futebol em maio, os incêndios no verão e, claro, a crise das urgências hospitalares durante as férias grandes e na sempre emocionante transição de ano.
Neste final de 2025 e início de 2026, à semelhança do resto da Europa, Portugal foi novamente “atacado” pela gripe. Este ano, a estrela da época chama-se influenza AH3N2, uma variante particularmente diligente a espalhar febres, tosses e dores no corpo, empurrando milhares de pessoas — algumas de risco, é verdade — para os serviços de urgência.
O problema começa quando às urgências chegam não apenas os doentes que lá devem estar, mas também os que podiam perfeitamente estar em casa, no sofá, de manta pelas pernas. Uma infeção respiratória alta é incómoda, ninguém duvida, mas um adulto saudável — mesmo já com os seus respeitáveis 60 anos — cura a gripe com repouso, chá e paracetamol bem alojado no bucho. Não precisa de recorrer ao mago da bata branca para o tratamento milagroso composto por lençóis quentes, chá de camomila com gengibre (ou poncha, para os mais fiéis às tradições regionais) e duas ou três pastilhas de paracetamol.
Quanto aos famosos tempos de espera, convém desfazer um mito muito acarinhado pelo público: o sistema de triagem de Manchester não é propriamente uma arma de precisão cirúrgica. Basta o doente apresentar febre para sair de lá pintado de amarelo — ou mesmo de laranja, se a febre for mais entusiasmada. Ora, se dez pessoas chegarem ao mesmo tempo com febre, serão todas triadas como “urgentes”. Resultado? Nenhuma delas será vista dentro da famosa hora prometida. Matemática simples, sistema complicado.
Há ainda outro elefante na sala (ou melhor, na enfermaria): as chamadas altas sociais. Há algum tempo escrevi um texto intitulado “Velhos no chão não… no velhão!”. A realidade mantém-se: muitos doentes, na sua maioria idosos, são simplesmente abandonados em macas ou camas de hospital pelas próprias famílias. Na ótica familiar, isto é um cenário cómodo, claro. Os velhos tomam banho, comem, fazem as suas necessidades, não dão trabalho, não chateiam e, melhor ainda, não dão despesa. Um luxo.
O problema é que essas camas, destinadas a doentes com patologia ativa, transformam-se em camas de lar improvisado. E isto entope tudo a montante: se a enfermaria não recebe, a urgência não escoa; se a urgência não escoa, a ambulância não consegue deixar o doente; se a ambulância não deixa o doente, não vai buscar outro. Resultado final: um sistema inteiro obstipado, sem necessidade de laxante.
Então, de quem é a culpa das urgências cheias e dos tempos de espera intermináveis? É de todos nós. Das famílias que abandonam os idosos no hospital; dos doentes não urgentes que recorrem à urgência por uma constipação, uma dor de dentes, uma entorse no mindinho ou porque querem saber se estão grávidas depois de uma brincadeira desprotegida com o João que conheceram na discoteca; da sociedade, com a sua gritante falta de literacia em saúde. Os programas em horário nobre, as redes sociais e os influenciadores profissionais do “like” podiam — e deviam — ensinar alguma coisa útil à população. E, claro, do Governo, que continua a assobiar para o lado em vez de melhorar, a sério, as condições de trabalho dos profissionais de saúde.
Portugal é, curiosamente, um dos países europeus com mais médicos por habitante. E, mesmo assim, consegue a proeza de ter serviços encerrados por falta de médicos. Senhora Ministra, acredite: se tornar o Serviço Nacional de Saúde mais competitivo, não só atrai novos profissionais como recupera muitos dos que abandonaram o sistema. E a saúde em Portugal — pelo menos nos grandes hospitais e centros de saúde — melhoraria a olhos vistos.