Incerteza torna Venezuela terreno fértil para desinformação
A recente captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, por forças militares norte-americanas, vem deixar aquele país da América Latina numa situação ainda mais frágil. A crise política, social e económica dura já há várias décadas e, de acordo com a ONU, cerca de 56% da população da Venezuela vive em situação de pobreza extrema e existem pelo menos 7,9 milhões de pessoas com necessidade de assistência humanitária. Ainda, desde 2015, quase 8 milhões de venezuelanos estão deslocados a nível mundial, sendo que estes representam o maior número de refugiados a necessitar de proteção internacional e o segundo mai or grupo de requerentes de asilo na União Europeia, depois dos afegãos.
Dando continuidade à contestada governação do seu antecessor Hugo Chávez, que deixou problemas sérios de endividamento, inflação e dependência do petróleo, Maduro contribuiu para que a inflação aumentasse ainda mais, a produção caísse abruptamente e o número de pobres atingisse valores nunca antes vistos. O ditador também foi acusado várias vezes de violar os direitos humanos, de agravar a crise económica e humanitária e de se manter no poder de forma ilegítima, o que lhe terá permitido destruir instituições democráticas e reprimir a oposição com prisões políticas.
Perante este cenário, é compreensível que muitos venezuelanos – oprimidos e cansados do regime – comemorem a apreensão de Maduro porque esta é vista como uma esperança, uma luz ao fundo do túnel que pode conduzir à libertação e à justiça.
Contudo, os que apoiam um governo ditatorial estão revoltados porque veem a intervenção de Trump como uma interferência imperialista, uma violação da soberania e um ato ilegítimo.
Independentemente da posição, o clima de incerteza na Venezuela transforma o país num terreno fértil para a proliferação de desinformação. Todo o contexto – por si só complexo e confuso – tem sido propício para a difusão de boatos e de conteúdos falsos, manipulados ou contraditórios. Perante a situação atual, os rumores têm ganhado força e as narrativas descabidas espalham-se com facilidade. Vídeos e imagens gerados por inteligência artificial tornaram-se virais quase de imediato e recuperaram-se conteúdos antigos para gerar pânico ou marcar posição.
Para colmatar, devido ao medo e ao pânico gerado pelo regime, há já alguns anos que muitos meios de comunicação independentes foram censurados ou bloqueados, centenas de páginas web ficaram inacessíveis e dezenas de canais de informação foram fechados, como forma de censura.
A avaliar pelas publicações, as poucas plataformas da ‘fact-checking’ venezuelanas que têm resistido à censura centram-se normalmente em ações de desinformação “de baixo risco”, não estando, portanto, focadas na verificação de notícias ou de outros conteúdos muito polémicos, sobretudo se forem políticos. Por exemplo, nas plataformas Cotejo.info e EsPaja.com, não consta nem uma única verificação sobre a situação política atual relacionada com a apreensão de Maduro.
Como tal, é natural que algumas narrativas desinformativas dominem, muitas vezes sem contraditório e reforçando versões que servem interesses específicos. Isto acontece porque o povo venezuelano não tem acesso a informação credível e depende muitas vezes de fontes externas, que podem não compreender o contexto local.