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Crónicas

O presidente que importa

Num tempo de ruído e decisões perigosas, Portugal precisa menos de protagonistas e mais de um Presidente que seja bússola, âncora, consciência e segurança

“Pensava que 2026 seria finalmente um ano para respirar algum alívio. Em vez disso, sinto uma ansiedade inenarrável, muito medo do que aí vem, e não sei mesmo qual será o candidato a Presidente da República que estará à altura de ajudar Portugal nesta tempestade. Já nem sei se é melhor votar, ou não, ou se é melhor votar naquele que parece estar mais longe de poder ser eleito.” Desabafava uma antiga aluna minha. Não por ignorância ou desinteresse cívico, mas por exaustão, medo e excesso de ruído. E não é a única.

Quando a ansiedade coletiva chega a este ponto, não estamos perante apatia, estamos perante um pedido silencioso de contenção, clareza e liderança consciente.

Estes pensamentos, quando persistem, transformam-se em sentimentos, e os sentimentos, inevitavelmente, moldam comportamentos, comportamentos que limitam liberdades individuais e condicionam, de forma profunda, a vida pessoal, profissional e coletiva.

A verdade é que já vivemos tempos estranhos e avizinham-se tempos sem precedentes na Europa e no mundo, não por dramatismo, mas por acumulação, são crises sobre crises, decisões que terão de ser tomadas com pinças, num contexto em que o erro custa muito caro e a improvisação é um luxo demasiado perigoso.

Neste cenário, o próximo Presidente da República não pode ser um aventureiro constitucional nem uma experiência, tem de ser âncora, garantia de consciência, solidez, responsabilidade e confiança, alguém que una e permita aos cidadãos dormir, não porque tudo esteja resolvido, mas porque sabem que há bússola, critério, caráter e ética no topo. Se é verdade que não escolhemos o tempo em que vivemos, também é verdade que escolhemos a forma como agimos e respondemos a ele.

O Presidente ocupa um cargo que não é executivo, não é um homem de ação nem de conflito permanente, é um negociador, mais do que isso, um conciliador, alguém que sabe escutar, sabe quando dialogar, que sabe falar, quando calar, quando agir e quando conter.

Ao Presidente da República cabe representar Portugal no mundo com dignidade, terá, necessariamente, de ser uma pessoa de grande sensibilidade humana e social. Uma pessoa de inclusão. Não pode fazer figura de panhonha perante ameaças, nem de valentão retórico perante aliados, não pode confundir palco com Estado, nem comentário com liderança, a firmeza sem bússola moral é ruído, e a diplomacia sem ética é vazio. Também não pode ter sombras, financiamentos duvidosos, dependências ocultas, promiscuidade com interesses mediáticos ou económicos, a independência não é um detalhe, é condição de sustentabilidade democrática.

A presidência não é palco para militância, nem refúgio para opacidade ou omissões confortáveis. É lugar de compromisso.

Quando a amostra de candidatos é frágil, a responsabilidade do cidadão redobra, e se votar não é um gesto automático, agora, mais do que nunca, é um ato de consciência radical, exige investigar, estudar, refletir, recusar aventuras.

No seguimento do que dizia antes, é certo que não controlamos o mundo exterior, mas somos responsáveis por não o entregar ao acaso, a presidência não é lugar de basqueiro político, é lugar de empatia, escuta, conciliação e sentido de Estado. Há escolhas que não pedem entusiasmo, nem números de “likes” ou seguidores, pedem clareza.

Conheço praticamente todos os candidatos, alguns há décadas, pessoalmente, e também por razões profissionais, e isso permitiu-me perceber, com clareza, quem quero que seja o próximo Presidente da República. O curioso é que a resposta não veio de um discurso nem de um palco, veio de um gesto muito simples, quase invisível para quem nos rodeava. Um gesto de atenção, de cuidado, de proteção. Um gesto seguro. Teve um significado profundo para mim, porque quem age assim no detalhe é capaz de representar, proteger e cuidar de uma nação inteira. E em tempos como estes, esse detalhe faz toda a diferença, porque não perdoam distrações.