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Crónicas

Taxa Turística: o dinheirinho que entrou, a cidade que saiu

1. Taxa Turística: o dinheirinho que entrou, a cidade que saiu.
[Uma crónica do engano servido à colherada e pago ao cêntimo]

Lembro-me do cheiro das árvores molhadas em Outubro. De quando ainda morriam de pé. Da cidade que amanhecia entre o mar e os postes de electricidade ferrugentos. Havia uma esperança mansa, naquela altura, como quem acredita que talvez, por milagre, a Câmara Municipal cumpra o que promete. Uma esperança ingénua, tímida, tolinha, como um cão vadio que se deita aos pés do dono que já o abandonou.

A taxa começou assim. Com um sorriso de cartaz. Com fotografias de conferências de imprensa. Com promessas feitas por pessoas que usam palavras como “estratégia”, “compensação”, “resiliência”. Dois euros por cada noite, diziam. Dois euros por cabeça vinda do mar. Por passageiro, como se os turistas desembarcassem do navio e, em vez de verem o centro, vissem directamente a factura. A cidade, pensávamos, ia melhorar. Iam limpar as ruas, plantar flores, apagar os cheiros da urina. Ia haver mais cultura. Ia haver concertos. Ia haver bicicletas. Candeeiros. Arte. Rigor.

Mas depois veio o tempo. O tempo que gasta. O tempo que suja. O tempo que come as palavras até só ficarem os ossos. E os ossos, nesse caso, eram os euros que entravam. Porque entraram. Sabemos que entraram. Os hotéis cobraram. Os cruzeiros desembarcaram. Os turistas pagaram. Os recibos foram emitidos com os nomes mal escritos, às vezes com os acentos trocados. Os anfitriões do alojamento local, aquela gente que ainda acredita em trabalhar, entregaram o dinheiro ao Município, direitinho, com os formulários preenchidos, os prazos cumpridos, os medos activados.

Mas a cidade continuou como sempre: velha e desonesta.

Dizem que era para reforçar a limpeza urbana. Mas as sarjetas continuam entupidas. Há lixo nos becos. Há latas amassadas nos passeios. Há cães vadios que ninguém apanha. Dizem que era para melhorar os jardins. Mas as folhas mortas estão por todo o lado. Os canteiros secos. Os bancos partidos. O Funchal tem ar de cão doente que já não ladra.

Prometeram mais cultura. Uma cultura qualquer. Com exposições, música, vida. Mas, tirando o Baltazar, a cidade está vazia, as praças caladas, os cartazes datados de Janeiro. Passam-se meses sem se ouvir um violino. A arte cheira a mofo. Os eventos, quando existem, parecem pré-fabricados, copiados de sítios onde as pessoas ainda se emocionam. Aqui já ninguém se emociona. Aqui a cultura serve apenas para justificar rubricas orçamentais e fotografias da senhora presidente ao lado de alguém com um instrumento musical. Não fosse o fantástico trabalho do Baltazar Dias e algumas coisas no antigo matadouro, e a cidade estava culturalmente morta.

E depois há o silêncio. O mais absoluto. Um silêncio que dói nos ouvidos. Ninguém sabe quanto foi cobrado. Ninguém sabe quanto foi aplicado. Ninguém sabe a quem foi adjudicado. Pergunta-se e a resposta é um comunicado redondo, feito de nada, com palavras gordas e moles como cadáveres de porco num talho ao fim do dia.

“Está em execução”.

“Será oportunamente divulgado.”

“Estamos a trabalhar.”

Mas a execução não se vê. O oportunamente nunca chega. E trabalhar, se estão, é na arte de esconder.

A cidade inteira assiste a isto como quem vê chover sobre um telhado roto. Uma chuva resignada, que já não espanta ninguém. Os vereadores vão às reuniões, falam sobre turismo como se o turismo fosse uma pessoa, uma figura mítica, uma espécie de Santo António que traz pão, mas não se incomodam com o cheiro do esgoto junto ao porto, essa porta de entrada da cidade.

Pergunto-me se a taxa existe mesmo para aplicar. Ou se é apenas mais uma maneira de sacar. Porque é isso que é. Um saque. Um roubo com recibo. Uma exacção legal. Um tributo justificado com palavras caras que ninguém leva a sério. Dizem que a taxa é “sinalagmática”, que obriga a dar algo em troco da taxa, mas o que recebemos em troca é um buraco na alma.

A cidade arde devagar. Arde no desprezo. Arde no abandono. Arde na incompetência disfarçada de conferência de imprensa. E os funchalenses, esses, estão cansados. Estão cansados de pagar por promessas. Cansados de acreditar que, desta vez, será diferente. Cansados de uma câmara que cobra como uma empresa, mas serve como um boato.

E enquanto isso, os fiscais multiplicam-se. Os regulamentos apertam. Os privados são vigiados, multados, perseguidos se não transferirem os cêntimos até ao último dia útil. A Câmara, essa, não apresenta um único relatório. Não presta contas. Não tem vergonha. Porque a vergonha, aqui, parece ter sido extinta como as flores dos canteiros.

Repito-me. E repito-me porque a cidade repete-se. A farsa repete-se. O vazio repete-se. A mentira repete-se. Como se nos habituássemos ao engano, como se o engano fosse a única forma de governo.

E então resta perguntar, como quem grita dentro de um poço:

Senhora Presidente, onde está o dinheiro?

Onde estão os equipamentos novos da limpeza? Onde estão os concertos, as feiras, os candeeiros? Onde está a tal “compensação” à cidade que tudo dá e nada recebe?

Onde está a coragem de assumir o que não se fez? Onde está o decoro de publicar um mapa de execução orçamental? Onde está a decência de responder?

Talvez esteja guardada no mesmo sítio onde se guarda a verdade. Um sítio escuro, trancado, sem janelas.

Talvez nunca tenha existido.

2. Os Meus

Na fotografia antiga que ilustra este escrito, o meu pai olha-me com os irmãos ao redor, todos eles madeirenses na raiz funda da alma, presos num instante que se perdeu algures num tempo mais simples, talvez inocente na sua dureza ou apenas mais subtil na crueldade que hoje se exibe sem vergonha nas esquinas do mundo. Dois irmãos, cedo partiram, levaram consigo histórias por contar, vidas inacabadas que me deixaram órfão dessas vozes, dessas memórias que nunca chegaram a ser. Olho para eles e tento reconstruir as suas vidas em fragmentos de imaginação e saudade, vozes sem som ecoando dentro de mim, silêncios pesados como brumas que descem sobre a cidade.

Pergunto-me com um desconforto que me rói as entranhas, se esta família, estes rostos, tocassem hoje algumas fronteiras sem papéis, sem nada mais que não fosse esperança e exaustão, se seriam acolhidos ou repelidos pelo medo frio das burocracias e das políticas endurecidas que agora se impõem por aí. Olho-os e questiono-me se seriam aceites como iguais ou reduzidos ao exotismo das suas faces marcadas por séculos de encontros e desencontros, pelos cruzamentos inevitáveis de mares e ventos, pelos traços de sangue misturado em travessias longas e impossíveis de esquecer. É um absurdo doloroso negar a realidade dos nossos rostos, os meus, os deles, carregados da herança árabe, mediterrânica, que escorre em nós como rios subterrâneos, escondidos, mas sempre presentes, vivos em cada geração.

Tenho traçadas as raízes familiares madeirenses até ao século XVII, fios ténues que se entrelaçam numa teia infinita, desenhando-nos os traços e destinos. A minha avó, que conheci e que de mim partiu cedo, numa fotografia que lhe celebrava um aniversário nunca acontecido porque já não está entre nós, podia ter sido uma princesa árabe, com a sua beleza austera e os olhos de uma melancolia quase palpável. A minha irmã herdou-lhe esses traços, e ao olhá-la reconheço claramente o eco dessa diversidade silenciosa que é a verdadeira natureza da Madeira, feita de pedaços de outros mundos, de gente que veio e ficou, de histórias contadas ao longo de noites intermináveis junto ao mar.

A Madeira é precisamente esta mestiçagem tranquila, esta identidade complexa e aberta que escapa aos rótulos simplistas e violentos com que tantas vezes somos confrontados. Não podemos renunciar ao que somos, nem aos caminhos percorridos, nem às vozes que ecoam silenciosas em nós, marcadas nas fotografias que guardamos como testemunhos irrefutáveis da nossa existência, da nossa profunda diversidade.

Hoje, enquanto contemplo a imagem do meu pai e dos irmãos, penso nas famílias que hoje batem a portas fechadas do mundo, famílias com rostos semelhantes, com destinos semelhantes, que se encontram diante da muralha fria da indiferença e do medo. Imagino-os, vejo neles o reflexo do meu próprio sangue, das minhas próprias raízes, e é por isso que defendo uma Europa que acolhe, que acolhe com regras os que vêm por bem e que aceitam o nosso modo de vida, uma Europa que não teme, mas que abraça, que compreende a riqueza profunda escondida nas linhas dos rostos, nas histórias das vidas que nela procuram abrigo e dignidade.