A oração que Francisco nos reensinou!
Francisco foi um Papa que suscitou sempre muita atenção pela humanidade das posições que tomou nos mais variados temas que afligem o mundo. Crentes, não crentes, católicos, agnósticos, conservadores, progressistas, Francisco a todos tocou, e de todos recebeu elogios pelo humanismo e pela devoção que mostrou pelos mais desfavorecidos e mais desvalidos, como o tinha feito já enquanto Arcebispo de Buenos Aires.
Muito se falou desta face temporal do Papa, mas pouco se falou da génese espiritual que o conduziu ao humanismo que demonstrou.
Fê-lo ele próprio desde a primeira hora como Santo Padre!
Francisco feito Papa disse ao que vinha logo na primeira vez que se dirigiu aos fiéis desde a varanda do Vaticano para o mundo:
- Boa tarde (buona sera)!, assim com esta simplicidade, como um qualquer de nós a cumprimentar um amigo que se encontra no caminho.
Continuou com uma piada – “parece que os cardeais foram buscar o novo pontífice no fim do mundo”, referindo-se à distância necessária para percorrer o caminho desde a sua Argentina natal até Roma, mostrando à cidade e ao mundo ser possuidor de um fino sentido de humor.
Prosseguiu, e com isso definiu já ali o que seria o seu caminho durante o Pontificado, pedindo que os fiéis orassem por ele, mas que primeiro rezassem com ele a oração que Jesus ensinara há quase dois milénios, e que Francisco reensinou praticando-a:
o Pai Nosso!
Pai Nosso que estais nos Céus,
santificado seja o vosso Nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no Céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do Mal.
Com estes três pequenos passos, mostrou que o pontificado seria de simplicidade, de simpatia e bom humor e de proximidade entre todos e com ele, já Francisco! (mais tarde reforçou a ideia quando exortou “todos, todos, todos!).
Quando oramos, quando falamos com Deus através da oração, voltamo-nos para Ele reconhecendo-O como único absoluto, e foi isto que o Papa quis fazer ao solicitar que nos juntássemos todos com ele para rezar a oração que nos foi transmitida directamente por Deus Pai através do seu Filho feito homem, Jesus.
Pai Nosso refere-se a Deus Pai, conferindo uma natureza pessoal de relacionamento, como entre um pai e uma criança – e este é um legado que Francisco deixa quando como um pai levou consolo e esperança a todos quantos por via da procura de uma vida melhor tiveram de migrar das suas terras para outras terras, ou porque tiveram a ousadia de terem visões diferentes para os seus caminhos de vida, foram tantas vezes marginalizados e ostracizados. Foram todos acolhidos no coração do Papa através também da oração que Cristo nos ensinou.
Rezando o Pai Nosso, ao santificarmos o Seu nome em oração, estamos a santificar o próprio Deus e ao invocarmos a vinda do Seu Reino, estamos querer receber um dom divino e não a querer conquistar um espaço que não nos pertence e pelo qual oramos, para seguidamente reconhecermos que aceitamos com esperança que seja feita a vontade Divina submetendo-nos aos Seus ensinamentos enquanto estamos nesta terra antes de rumarmos aos Céus como tanto nos ensinou Jesus. Francisco ensinou-nos através do Pai Nosso que somos todos Filhos de Deus e que somos todos acolhidos da mesma forma nos Céus, mesmo que na Terra possamos ter sofrido revezes e incompreensões. Francisco quer todos, todos, todos assim na Terra como nos Céus!
Uma oração como o Pai Nosso é também um conjunto de pedidos e solicitações que fazemos a Deus Pai.
E pedimos!
Pedimos que o pão nosso nos seja dado diariamente, tal como Deus provia diariamente o maná para alimentar o povo de Israel em fuga do Egipto. Como o maná não se podia manter de um dia para o outro, Deus providenciava maná novo todos os dias. Francisco lutou e exortou-nos a levar o maná de cada dia aos pobres e desfavorecidos, aos migrantes e aos desvalidos da sorte, da mesma forma como se fosse para cada um de nós quando oramos o Pai Nosso a Deus Pai.
Pedimos também o perdão de Deus para as nossas ofensas, e pedimos força para podermos perdoar. O perdão dos nossos pecados é uma graça de Deus pois o homem não tem a capacidade de reparar os seus próprios pecados. Jesus ensina-nos a relacionar as nossas obrigações perante Deus com as obrigações que temos perante os nossos semelhantes. O perdão aos nossos semelhantes não é uma garantia de um perdão de Deus, mas pode significar a sinceridade do nosso pedido, assim o queiramos. Francisco foi pioneiro no perdão que pediu pelos abusos de elementos da Igreja a jovens, acolheu no seu coração todos, todos, todos a receberem a bênção de Deus ao dizer “quem sou eu para negar a bênção a quem quer que seja”!
“Não nos deixeis cair em tentação” é o que solicitamos na oração, como um pedido directo a Deus para que nos preserve de situações críticas de sujeição à tentação, como as que Jesus enfrentou, já que nada escapa à soberania de Deus. Ao defender os pobres, os desfavorecidos da vida, pede para que peçamos a Deus força para não deixar que as questões puramente materiais se sobreponham à espiritualidade necessária para podermos reconhecer que as necessidades de muitos não sejam espezinhadas pela ganância de poucos, com o último pedido da oração – livrai-nos do mal!
Francisco com humildade pediu para o acompanharmos na sua primeira oração, na oração que serviu de orientação para o seu pontificado, uma oração que, com as suas sete petições, resume o que o Papa pediu para o mundo que o iria seguir:
as primeiras petições aproximam-nos de Deus e da sua e da sua glória e do lhe podemos pedir em espiritualidade – a santificação do seu Nome, a vinda do seu Reino e a realização da Sua vontade. As segundas expõem ao Pai as nossas misérias e nossas expectativas. Pedimos que nos alimente, nos perdoe, nos defenda das tentações e nos livre do mal.
Muitas outras considerações teológicas, mais ou menos profundas, haverá certamente acerca da oração que Jesus ensinou e que é provavelmente a oração mais “importante” para os crentes nos ensinamentos de Cristo, mas o Papa Francisco, com o seu humor, com a sua simplicidade, com a sua proximidade para com os todos os seus irmãos, sobretudo dos menos favorecidos, fez do Pai Nosso fonte para toda a acção que desenvolveu ao longo dos anos e que tantos frutos deixou para poderem ser colhidos por todos, todos, todos.
Uma simples oração pode, e deve indicar o caminho, como mostrou urbi et orbi Franciscus pp.
Muito obrigado pela lição Papa Francisco. Peçamos para que a sua lição tenha eco no seu sucessor que brevemente será eleito.