Desencanto
Todos os anos, por esta altura, começa a escolha da dita palavra do ano.
Suponho que sendo hoje uma sexta-feira dia 13, a palavra superstição deveria ser a escolhida, mas como as superstições não movem moinhos nem põem o mundo a girar, adiante: a equipa da Oxford University Press escolheu o termo “brain rot” como palavra do ano, que numa tradução livre para português será algo como “cérebro podre”, baseados nos impactos negativos que o consumo excessivo de conteúdos on-line sem qualidade pode ter, levando a uma deterioração do estado mental ou intelectual de uma pessoa.
Há uma série de instituições nacionais e internacionais que procuram a palavra que pode definir um sentir global, ou mais local, e se adeque ao que durante o ano se foi passando em termos colectivos.
A minha palavra neste fim de ano é “ desencanto”!
Desencanto pode ser definido como perda ou fim do encanto, por falta de entusiasmo, estado de desilusão, desengano ou, se utilizado como verbo desencantar pode significar como descobrir, achar (coisa muito escondida ou abandonada em sítio escuso). Estas são definições que se podem encontrar em qualquer dicionário de português e não reflectem qualquer opinião pessoal.
Desencanto é o que sentem os fans e adeptos de uma equipa de futebol, ou de uma qualquer outra agremiação cívica, quando o sucesso que tanto desejam não aparece, quando a alegria da vitória dá lugar ao desespero da derrota, quando o entusiasmo da manutenção (ou de eventual subida de divisão dá lugar ao sabor amargo de uma descida), levando a episódios de mudança de treinador e/ou de dirigentes a meio de uma época que se desejava de sucesso.
Desencanto é o que sentem os apaixonados quando a paixão vai e o amor não chega.
Desencanto é a tristeza que chega quando os sonhos não se tornam realidade, mesmo que a realidade seja tantas vezes tão ou mais proveitosa do que o que o sonho fazia suspirar por!
Há desencanto todos os dias da nossa vida, porque a vida nem sempre corre como esperaríamos que corresse, porque as pessoas nem sempre são o que esperaríamos que fossem, porque as promessas feitas em determinadas circunstâncias são desfeitas quando as circunstâncias entretanto mudam, porque o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira fruto das mudanças que as pessoas vão tendo em função dos seus próprios interesses, quando o umbigo é mais importante que o bem geral.
O The Economist escolheu para palavra do ano – kakistocracy – na sequência da eleição de Donald Trump e que pode significar algo como o governo dos piores. O mundo observa fenómenos destes a uma escala global e nós vemos e sentimos um grande desencanto pela política que leva a climas de incompreensão pelas guerras que provoca, pela instabilidade que gera na vida dos cidadãos.
Vi há alguns dias na traseira de uma carrinha de uma pequena empresa de construção civil esta frase:
Tudo aquilo que Idealizar…
Fale comigo para Realizar!!
e lembrei-me das promessas que ciclicamente vão fazendo os candidatos a qualquer cargo público dependente de eleições que dizem mais ou menos a mesma coisa, com a diferença de que este mestre realiza o que foi sonhado por um seu semelhante, mantendo o encanto do sonho sonhado em vez de levar ao desencanto quando faz letra morta da promessa feita em campanha.
Nos encantos e desencantos há sempre um substracto de drama ou comédia ou de saúde ou doença. Tendo alguma preferência pelo optimismo do bem-dispostismo, diria que a diferença entre um cómico e um comediante é que o cómico diz coisas engraçadas e um comediante faz engraçadas as coisas e, sem dúvida, o encanto da arte tem atraído pessoas de outras áreas de intervenção pública, mas com o risco de transformar o encanto do texto proposto em desencanto por um resultado menos conseguido.
Mas mesmo os cómicos e os comediantes podem ter momentos menos felizes e construírem castelos no ar, como acontece numa neurose, ou mesmo habitá-los como indicador de uma situação mais preocupante de desfasamento com a realidade.
Desencanto é assim uma palavra que traduz o que temos vivido ao longo deste ano e que espero que se possa transformar em encanto no ano que se aproxima a passos largos, e prefiro “desencanto” a “brain rot “, porque de longe é preferível viver desencantado do que com um cérebro podre.
P. S. – Desencanto é o que sinto por o meu Amigo João Abel de Freitas ter decidido não nos presentear mais com o encanto das suas crónicas mensais nas páginas do Diário de Notícias, decisão que respeito muito e entendo, mas que farão muita falta para a manutenção de algum encanto no correr dos nossos dias.
Bem hajas João Abel pela lucidez e assertividade que sempre puseste nas tuas reflexões mensais!